As Cidades o Homem

As Cidades o Homem

Chegados quase ao fim do mês de Maria venho aqui dar-vos nota de que o meu próximo trabalho fotográfico, tendo como pano de fundo AS CIDADES O HOMEM, tem especial enfoque nas problemáticas da condição existencial pós-moderna, caraterizada pelo primado do consumo e do homo consumens, produto do capitalismo tardio ou neocapitalismo. Consumo que se identifica com o poder e a felicidade, e sustenta a autoridade da mercadoria como elemento de dominação da sociedade, num mundo movido pelas aparências e pela voracidade permanente de factos, notícias e produtos.
O projeto é, como sempre, uma reflexão sobre questões que me preocupam e sobre as quais pretendo comunicar alguma coisa, tomar posição.
É um trabalho de apropriação, sobre cujas imagens estão neste momento em edição. Provisoriamente tem por titulo EVERYTHING IS NOT. Uma das imagens da série fica aqui como antecipação.
arlindo-pinto-everything-is-not-11O projeto será apresentado sob a forma de “work in progress” apenas a convidados (darei noticia antes) no próximo mês de junho, uma vez que a sua apresentação formal apenas terá lugar no dia 30 de Outubro, entre as 16h30 e as 19h30, nas instalações do Palácio Pancas Palha, em Lisboa.

Entretanto, os projetos de 2015 que foram editados em fotozine, ZEMRUDE, SPACE3 e AUSÊNCIAS, depois de esgotado o stock inicial, estão de volta com a possibilidade de fazerem o download gratuito de uma fotografia de cada uma das séries. No caso de estarem interessados em alguma das zines/fotos cliquem AQUI, sff. A aquisição das zines ajuda-me a financiar novos projetos. Fica aqui um profundo agradecimento a todos os que têm adquirido exemplares das ditas.
Saudações fotográficas.

No Rewind & No Replay

No Rewind & No Replay

“Viver é morrer um pouco todos os dias.

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Texto de Bernardo Soares

Fotografias © 2012