A herança

A herança

I_MATERIAL, de Carlos Gote Matoso e No Mundo das Fadas, de Nuno Cabrita

O Carlos Matoso, vencedor do Concurso do Mês da Fotografia 2014 do Barreiro, tem neste momento em exposição no Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro, o seu projeto “I_MATERIAL“: “I_Material é um projeto fotográfico desenvolvido em 2 séries de imagens e pequenos textos, que aborda as relações entre um Eu (sujeito) e a Matéria, explorando o subtil transformativo que as enlaça. Tem-se como ponto de partida a interrogação: “O que será realmente nosso?”. Prevê-se a participação do interlocutor, com imagens e textos, para a ligação das 2 séries.
No final, o nome do projeto deverá ser descodificado para I MATERIAL IMMATERIAL, numa relação triangular dos 3 termos.“
No âmbito da exposição e como interlocutor de ligação, o Carlos convidou-me para participar com uma fotografia e com um texto alusivo à mesma e ao significado que certos objetos têm para nós, seres de afetos e memoria.
Vão visitar a exposição que está patente até 17 de maio de 2015. Fica abaixo a fotografia e o texto.

A herança

“Muitos, muitos anos antes estava já prometido.
Uma banalidade para muitos, para outros o bem de uma vida.
Uma vida de sol a sol, como se usava e apenas o suficiente para parco sustento. Somente o bastante para resistir. Os magros números das sobras, amealhados a fadiga e perseverança, deixaram um dia que um relógio se transformasse num bem precioso.
O que marcava o debutar da alva e o abater da noite, deixando por entre os dois as quatro refeições do dia. O que se olhava de quando em vez para, com certeza, soltar os homens para o almoço ou para a merenda, por entre as malhadas do pico que adoçava a pedra.
Sempre acorrentado à presilha das calças ou a uma das casas dos botões da camisa suada.
Pela idade adentro foi-lhe marcando as horas, os dias e os anos até se finar.
Num passado longínquo, e porque eu o estimava, foi-me apalavrado como deixa. Eu e outros a ele tínhamos direito por decesso do proprietário. Mas não, isso não estava em causa.
– É para ti!
A mulher, segura, de olho claro e sinais do tempo na face miúda acercou-se de mim, estendeu-me a mão com aquele objeto brilhante:
– Toma, é a herança do teu avô!
Atrás da herança vieram as memórias dos dias solarengos, da cantoria dos homens que assentavam a pedra, das brincadeiras com o cão, das merendas à sombra de uma árvore qualquer e junto a um montão de rama de batatas ceifada havia pouco.
Afinal a herança não foi unicamente aquele objeto, foi muito mais: tanto quanto consigo recordar.”

Take My Body

Take My Body | Photobook Club Madeira

Photobook Club Madeira

“Take My Body” é um despojado exercício de partilha e aceitação do corpo, animalesco e primário, que se afastou da ideia de um modelo que recusa. É carne na absoluta ausência de segredo, de “glamour”, postulando a afirmação de que “não há nada a não ser isto” e isto é real!
É (citando Girogio Agamben), o “desencantamento da beleza da nudez, esta sublime e miserável exibição de aparência para além de todo o mistério e toda a significação”.

Hoje no Photobook Club Madeira, via Skype

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Como me interessei pela fotografia

COMO ME INTERESSEI PELA FOTOGRAFIA

Câmara Bireflex
Câmara Bireflex

Um dia destes um crítico de arte perguntava-me como me interessei pela fotografia! É daquelas perguntas de algibeira para a qual pensamos ter a resposta na ponta da língua, mas que por vezes é mais difícil do que aparenta. Naturalmente que sabemos a resposta. Usualmente, é uma paixão que desperta cedo, por que alguém da família já fotografava, por que queremos imortalizar momentos, dar voz a certas causas, dar a conhecer belezas e horrores, etc.
Como foi comigo? Como me interessei eu pela fotografia? Como criança! Mas não em criança! Em criança fui apenas mordido pelo bicho! Acho que depois de mordido pelo dito, me interessei pela fotografia, como a criança que todos os fotógrafos devem ser: no olhar curioso, na descoberta incessante do que olhamos mas não vemos verdadeiramente. Da vontade de ver a realidade de forma diversa, aquela que só é visível no produto da câmara fotográfica. Por exemplo, o tempo inscrito na imagem (inscrição do movimento na imagem sob a forma de um “borrão”) só existe na fotografia. Muitas das minhas fotografias de musica ao vivo ou a série Fios de Vida são para mim dos melhores exemplos. Isso é algo que me cativa, que sempre me surpreende e que só a fotografia me dá!
O bicho ter-me-á picado aos 7 anos, mais coisa menos coisa. De facto, não sei porquê e também não interessa, alguém me ofereceu uma camara bireflex. Não sabia sequer o que era e nunca obtive qualquer imagem com ela. Desapareceu no tempo. Gostava de ver através dela! Era um brinquedo. Psicologicamente, esse “brinquedo” que se interpunha entre mim e a realidade, pode em última análise, ter constituído o início da construção de uma linha defensiva do meu “eu” perante o mundo.
Creio que esse é o meu maior interesse na fotografia: ser a minha defesa dos outros e, simultaneamente, uma forma de revelar o meu eu ao mundo! Contraditório? Talvez. “Viver é estar em contradição”, disse Sarte, por isso não me preocupo com ela.
Enquanto adolescente sem meios para comprar uma câmara, fotografei com câmaras compactas emprestadas. Durante muito tempo fui um fotógrafo “sazonal” com uma Yashica Electro 35 G. Fotografava nas férias, sobretudo família e uma ou outra aventura fotográfica!
Só muito tarde em idade e recentemente no tempo (1999) é que pude comprar a minha primeira SLR e em 2003 fazer um curso profissional de fotografia e um curso de estética fotográfica na Oficina da Imagem. Aí vi o cosmos e iniciei um percurso em que pude por em prática algumas ideias, frequentar outros cursos e workshops e dedicar mais tempo à fotografia.
Hoje em dia faço o que me apetece, quando me apetece. Angustio-me quando me apetece e não tenho ideias. Procuro alternativas. Não me revejo totalmente na fotografia tradicional! Basicamente, não tiro fotografias, gosto mais de as fazer!

THE NAKED PHOTOGRAPHER

No próximo dia 18, sábado, tem lugar mais um WIP. Estes encontros da responsabilidade do THE PORTFOLIO PROJECT visam mostrar os projetos mais recente, em andamento, de vários fotógrafos. São espaços de reflexão à volta da fotografia e ums oportunidade para discusão dos projetos entres os que fazem e os que vêem autores e público, numa perspetiva de critica construtiva… ou destrutiva, por mim tanto faz. Vou lá estar com um projeto que nomeei de THENAKEDPHOTOGRAPHER. O Alipio Padilha e a Susana Jorge também marcam presença.

Podem aparecer por lá, no auditório Carlos Paredes, na junta de freguesia de Benfica, um pouco acima do restaurante Edmundo. O tempo suficiente para ganharem forças para depois se irem embebedar para o Cais do Sodré ou para o Bairro Alto. Eu ainda não sei para que lados vou.

Vá, tomem lá um abraço.

WIP THE PORTFOLIO PROJECT

Fotografia e memória na era digital

fotografia e memóriaFOTOGRAFIA E MEMÓRIA NA ERA DIGITAL

A era digital da fotografia aportou ao processo fotográfico possibilidades imensas, democratizando-o. É, no entanto, comum estabelecer-se que com o início dessa era se deu a morte de uma outra designada analógica, como sinónimo de fotografia com filme e antónimo de digital. Não é verdade.
Em vários fóruns se discute o “analógico e o digital”: que diferenças, se um é melhor do que o outro, se um dá possibilidades que o outro não tem, etc., etc.
Como já disse num outro artigo aqui do Planeta, esta é uma “discussão estéril”. São apenas instrumentos de trabalho, meios para chegar a um fim: a fotografia. Temos que forçosamente admitir a convivência destas duas realidades, destes dois caminhos distintos.
Como escreve Erivam Morais de Oliveira, mestre em ciências da comunicação, em “Da fotografia analógica à ascensão da fotografia digital”: “Não se pode descartar o digital. Mas também não se pode simplesmente abandonar o analógico, sem qualquer preocupação com o passado, o presente e o futuro. Afinal, o que seria da memória dos séculos XIX e XX se não fossem as fotografias produzidas em negativos, que armazenam até hoje imagens importantes de nossa história?”.
Apesar do artigo de onde subtraímos a citação supra, versar acima de tudo sobre o papel dos fotojornalistas na era digital, aflora no final uma questão que a tal dita “democratização” da fotografia, consubstanciada, designadamente, num acesso fácil aos meios e aos resultados imediatos provenientes do uso desses meios, a qual seja a da fugaz existência dessas imagens de consumo imediato, de usar e deitar fora, raramente impressas, limitadas ao virtual.
Como afirmou Cartier-Bresson: “De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório.” (Cartier-Bresson, 1971:21).
A fotografia atua, pois, como uma forma de capturar o tempo e dilatar a sensação do seu controlo, congelando o instante para a eternidade. A impressão das fotografias em papel constituía para todos nós um álbum de memórias. Com o advento do digital e da “fotografia pastilha elástica”, corremos o risco de nos tornarmos seres sem memória ou sem memórias, imagens que nos recordem o que fomos, como e com quem estivemos e aonde! As fotografias colocadas nas redes sociais são esquecidas e a segurança das que permanecem armazenadas em suportes digitais, correm o risco de desaparecer, se a não tivermos redobrados cuidados na sua conservação.
Daí que a melhor estratégica possa ser a da impressão, seja fotografia a fotografia, seja em álbuns de impressão digital. Além do mais somos todos capazes de manusear e passar o álbum de mão em mão. Raramente todos conseguem manusear programas de computador e até passar o computador de mão em mão se for um desktop. Além disso o mercado está repleto de ofertas nessa área, até com descontos consideráveis, como no caso dos descontos da Groupon. Depois de imprimir as suas fotografias e fazer o seus backup pode descansar e usar os descontos em lazer da Groupon.
Não há por isso desculpa para perder a memória!

Secretário: o que faz?

Secretário!Ora hoje voltamos a falar de secretariado.
Aqui no Planeta do Catos tem surgido ora pedidos de ajuda ora comentários a propósito de secretariado. São sobretudo profissionais brasileiros, o que dá a ideia de que muito mais do que em Portugal se procuram e se valorizam os profissionais do secretariado. Seja como for, aqui vai mais um pouco de prosa sobre a questão.
Um secretário pode ser conhecido por uma variedade de outros títulos, p. ex. como assistente administrativo ou assistente pessoal. Estes títulos podem refletir diferentes tipos de trabalhos de secretariado, apesar de todas eles partilharem o comum das tarefas administrativas. O secretariado já tem uns bons anos, para não dizer mais: empresários gregos e romanos e políticos, por exemplo, usaram secretários pessoais e funcionários para gerir os seus assuntos, ou mais modernamente, a sua agenda.
No mínimo, uma secretária trata de correspondência, gere a agenda de quem secretaria, mantem organizado o seu sistema de arquivo, opera os equipamentos de escritório necessários, como telefones, fax, multifunções, etc., além do seu próprio PC, naturalmente. Habitualmente, a secretária também atende telefones e encaminha telefonemas para as pessoas indicadas, em função do assunto, se o mesmo não é tratado pelo seu chefe. Alguns secretários também lidam com os fornecimentos de material de escritório, podendo, em alguns casos, inclusivamente, trabalhar com matéria orçamental e contabilidade.
Um secretário deve ter experiência com computadores, designadamente, software de gestão de dados, de documentos e as ferramentas mais usadas no escritório, p. ex. o pacote Microsoft Office.
Além de ter habilidades de escrita, um secretário é um hábil gestor de tempo. A minha experiência diz-me que são de enorme importância nos escritórios ou gabinetes em que trabalham. Uma boa secretária antecipa as necessidades de pessoal de escritório, resolve os problemas rapidamente, e funciona de forma tão eficiente que muitas pessoas não percebem o quão valioso é o secretário até que ele ou ela deixa o cargo. As secretárias têm, em regra, excelentes capacidades de relacionamento pessoal, não só relativamente às pessoas para quem trabalham, mas também em relação àquelas com quem trabalham. São seguras na manipulação de material confidencial, e gerem com cortesia o caos que é frequentemente um escritório movimentado.
Muitas escolas oferecem cursos para todos os que estão interessados em tornar-se secretários. Estes cursos incluem aulas de informática, gestão documental, contabilidade, e outras aptidões que um bom secretário deve demonstrar no seu trabalho.
Muitos secretários trabalham a tempo parcial ou como trabalhadores temporários. As empresas inteligentes contudo, tendem a compensar generosamente os seus funcionários qualificados, nomeadamente, oferecendo-lhes trabalho a tempo inteiro, benefícios de saúde, etc.
Não valorizar o trabalho de um bom secretário é cegueira profissional e sinal de pouca capacidade para avaliar pessoas, além de revelar falta de inteligência. Como disse acima, só quando não está, muitos entendem a falta que o secretário faz.
Pessoalmente valorizo muito o trabalho de quem me dá apoio de secretariado e a sua falta transforma, de certa forma e em algumas situações, um barco a motor num barco à vela…