Dia de raiva!

Originally posted 2015-02-04 00:12:47.

Manifesto - Ricardo Figuinha(Atenção: no texto abaixo é usada linguagem vulgarmente reconhecida como calão e obscena. Seria socialmente correcto não o fazer. Mas eu não sou hipócrita, nem bebi chá em criança. Apenas café que me excitou suficientemente o cérebro, não só para dizer estas besteiras, mas também para saber que todos o fazem, ainda que digam que não. Fingimento inaceitável e moralmente reprovável. Se a linguagem da natureza citada o (a) choca, ou se é menor, peço-lhe encarecidamente que não leia o texto abaixo. Se o fizer e não estiver em sintonia, seja ela FM ou OM, não diga que não foi avisado(a) e enxovalhe depois o autor e o citado, fazendo comentários à impropriedade da linguagem e da falta de educação dos mesmos, correndo dessa forma o risco de estar deliberadamente, e por culpa própria, a difamar pessoas de bem, que podem perfeitamente pôr-lhe um processo em cima, ou em baixo, como mais lhes aprouver.)

Andava eu de volta da limpeza e arrumação da garagem, deitando fora vestígios do meu passado, duvidoso ou não, quando por entre um trago de gin tónico bem frio (que as limpezas requerem calma e descontracção etílicas) e um tema – The Hunter – dos Free (uma das maiores bandas rock que o planeta já conheceu), quando inopinadamente deparo com um dos livros que mais marcas deixou na minha pouco sóbria juventude. Nada menos de que o “Manifesto” de Ricardo Figuinha, uma “proposta de anarquia corporal, sem erva, sem ácido, sem nada”, algo de que considerando o conteúdo tenho sérias dúvidas, Continue reading “Dia de raiva!”

"O"

Originally posted 2015-02-04 00:12:38.

DEATH SICK ROOM - EDWARD MUNCH
DEATH SICK ROOM - EDWARD MUNCH

Deixem-me falar-vos de “O”. “O” era um mecânico falido por razões que apresentarei como simples e óbvias: furtava peças de veículos de certos clientes, para colocar nos de outros também certos clientes. Tendo em consideração que havia sempre veículos na oficina o negócio não parecia de todo em todo mau. Tira daqui, põe ali, veículos reparados com investimento zero. Mas era, era mau. Tão mau que além de falido, o “O” era com frequência ameaçado de morte, ou, na melhor das hipóteses, de uma soberba carga de porrada. Devo dizer que ignoro se algum dos seus cada vez mais escassos clientes acabou por lhe chegar a roupa ao pêlo, enfim, dar-lhe um aconchego fraterno, aquele abraço. Sei, contudo, que andou durante tempos infindáveis no fio da navalha. Mas, “O” só correu perigo efectivamente grave, quando, inopinadamente, fugiu com a filha do chicheiro! Episódio de outra novela, que aqui há-de contar-se. Mais tarde.
Mas, antes deste surpreendente acontecimento, passou ele próprio a ser detentor de uma suprema arma branca, comprada a um cigano que a trouxera de Espanha, trocada que fora por um produto miraculoso para curar a disfunção eréctil masculina. “Falta de tesão”, como com propriedade o nómada lhe chamara. “A mim é que não me falta”, apressou-se o “O” a manifestar junto do dito. “Compadre, se algum dia lhe faltar, já sabe, cá estou eu!” Que não, que isso não ia acontecer, que era muito homem, mas que, acrescentou de forma coloquial, se tal improbabilidade se manifestasse já se sabe: “enquanto houver língua e dedo, não há puta que me meta medo…” A oratória tornou-se ainda mais eloquente a partir daí e foi rodando à volta dos copos ora cheios ora vazios, de cerveja para um e vinho tinto para outro.
Como disse, o “O” só correu maior perigo do que as ameaças de maus tratos e morte, quando fugiu com a filha do chicheiro! Nessa altura foi perseguido por arma de caça, cujo proprietário, o pai a quem a desgraça caíra em casa, o ameaçou de “suicídio”. Este tinha já antecedentes na matéria. Um pacato pedreiro, com quem quisera ajustar contas antigas, tinha já feito saber no povoado, que o dito o ameaçara de acto semelhante: “Já me quis fazer a folha, mas quilhou-se. Que vá suicidar a puta que o pariu.” Sabe-se hoje que tudo não passou de uma invenção à moderna, como as que se montam aos politiqueiros, e que nem o pai da foragida, nem o pedreiro sequer se conheciam. Tudo inventado pelo povo para denegrir a imagem do chicheiro, homem de poucos amigos.
“O”, fazia do beber escarros o ponto mais alto da sua carreira na mecânica e a demonstração suprema da sua virilidade. Houve tempos em que os que o rodavam e os que de mais longe podiam deitar um olho, quando estendidos nas esplanadas dos cafés da terra, eram agraciados, com frequência acima do desejável, com essas ocasiões de celebração da masculinidade. Uma ou outra vez esbocei um vómito. Contive-me e suprimi-o com uma golada de Sagres. “O” escarrava duas ou três vezes para dentro do copo da imperial bebida e ingeria os escarros, após o que olhava à sua volta confiante e soltava um profundo e prolongado “ah!” de satisfação.
Os amigos perguntavam-se entre si porque raio o “O” fazia aquilo. Não se sabia, mas era motivo de risada frequente. Algo a que o visado não atribuía importância alguma.
Com o tempo, “O” foi perdendo a cor natural e tornou-se, durante um curto período, um ictérico ambulante. De tal forma que numa tarde de Agosto, fomos informados pelo “R” que o “O” tinha dado entrada no hospital da região (de onde raramente se saía vivo), padecendo de algo a que chamam hepatite! “Onde é que ele apanhou isso?”, interrogou o “R”. Todos olhámos pasmados para o “R”, filho de “E”, por sinal já falecido à altura.
“O” havia de recuperar.
A conselho médico deixou de beber escarros.