Todos Mortos

Todos Mortos

Originally posted 2015-02-04 00:15:02.

Todos MortosRuo, construo, desconstruo, reconstruo, num ajuste curvo
de uma abóboda celeste incoerente
de um fogo efémero que arde mas não queima
como a insignificante morte dos antepassados,
depois da dor, morte e terrestres seres moídos
em impulsos incoerentes de glória falsa
efemeramente enganosa.
Proxenetas do pai no seu dia, sem genetriz nem descendente que o acoite.
Triste macaqueação e um inútil ser filho da mãe.
Aspiro a armas e canhões nunca assinalados em qualquer parte
num retângulo de homens difíceis, génios do horror nativo,
extenuados da inteligência sobredotados da depredação,
verdugos do povo madraço macambuzio prenhe de revoltas
encerradas nas paredes obscuras dos tugúrios da imigração.
Todos mortos, todos mortos… filhos da puta!

bottom

Bottoms!

Originally posted 2015-02-04 00:15:00.

BottomO pudor (falso) impede, amiudadamente, os humanos de ter discussões elevadas sobre certos assuntos mundanos, até porque, demasiadas vezes socialmente pouco aceitáveis e mal interpretadas. A propósito, num dicionário de língua portuguesa que me passou pela mãos, sobre um dos significados de erotismo, pode ler-se “preocupações sexuais exageradas”! Assim, salvo se desejar ser apelidado de “tarado(a) sexual”, deve evitar, pois, pronunciar-se sobre assuntos eróticos e, portanto, traseiros, pelo menos em público: “vícios privados, públicas virtudes”.
Giles Berquet, fotógrafo de renome na área do erotismo, dizia dos traseiros femininos, serem a mais fascinante das maravilhas do mundo, monumentos ao amor. Jamais escreverei uma linha ou pronunciarei uma fala que diga o contrário. Se fosse católico praticante poderia jurá-lo sobre as chagas de Cristo (creio existir em certos meios este tipo de juramento, tomando o filho do Criador, ou mesmo Seu Pai, por testemunha ou invocando coisa sagrada) ou que me caísse um braço, ou algo semalhante (mas sem exageros, porque há coisa sobres as quais não deve nunca jurar-se). De forma alguma o ousarei!Mas quando o pudor não está presente e a conversa é aberta, entre os humanos discutem-se com muita frequência, mesmo durante os horários de tabalho, os traseiros deste(a) ou daquele(a). Os do sexo masculino tendem a pronunciar-se, alguns até eloquentemente, sobre a qualidade dos ditos, mas, regra geral, e apesar dessa alguma eventual eloquência, o discurso acaba com conotações sexuais, que caem mais para o lado da pornografia do que para o do erotismo. Os humanos femininos, podendo discutir a qualidade, pronunciam-se, em regra, sobre a quantidade, fazendo, sem parcimónia, uso dos adjectivos considerados ajustados ao visado e realizando comparações com o próprio. Seja como fôr, uns e outros, por este ou aquele motivo, nutrem por eles admiração e muitos tratam-nos até com desmesurado afecto.
Para celebrar e homenagear os traseiros femininos a Carlton tem no mercado, desde 2000, um pequeno livro para amantes da fotografia (e de traseiros), designado “Erotique Bottoms”. Recomendado a todos os níveis, pelos trabalhos fotográficos, de que é exemplo a foto ao lado de Giles Berquet, e por tudo o resto…
Abençoada a hora em que me ofereceram um exemplar!
foto: desconhecido!

tabaco_port_suave

Um cigarro, pois!

Originally posted 2015-02-04 00:14:57.

tabaco_port_suavePeres levantou-se num pinote de face ruborescida e pernas bambas. Os presentes riam e comentava entre si o sucedido ao engenheiro. Este não sabia que fazer nem que dizer. Olhou ao seu redor e da boca sai-lhe um tremido – Desculpe! Depois quedou-se mudo, esquecido do tabaco.
– Ora essa, são coisas que acontecem. – Retorquiu Clara. – Não se preocupe, olhe se caía directamente no chão! Ficava logo a falar fofinho, sem os dentes da frente.
A mulher tem sentido de humor, cogitou Peres que avançou com um – Pois era!
– A menina desculpe mais uma vez, mas nem dei pela cadeira. Espero não a ter aleijado. Vinha à máquina…
– Pronto, agora já está junto da máquina e pode servir-se.
– Pois é! – Peres fitou os maços de tabaco, cada um de sua côr, sem saber qual o que devia escolher. Ali permaneceu hirto e hesitante o tempo suficiente para Clara perguntar:
– Então não tem a sua marca?
O rubor nas bochechas de Peres acirrou-se e gaguejou, que não, que não havia a sua marca preferida, teria que ir a outro lado.
– E que marca é essa. – Interrogou Clara. – Posso sempre oferecer-lhe um cigarro, se gostar destes. – Continuou enquanto lhe mostrava o seu maço de cigarros.
Peres nem estava em si e as mãos tremiam-lhe de medo por duas razões: a primeira era Clara, que se mostrava compreensiva perante a sua aparatosa queda e o faziam pensar que poderia com ela entabular uma conversa que o levasse mais além, apesar de não saber onde; a segunda é que nunca tinha fumado em cigarro na vida, salvo uma ou duas experiências mal sucedidas na escola primária em que os colegas mais velhos o convenceram que podia deitar fumo pelos olhos. Para isso tinha que inspirar fundo à primeira chupadela. Foi o que fez. Nesse dia ficou ciente de que nunca conseguiria deitar fumo pelos olhos ou que antes disso os pulmões lhe sairiam pela boca.
– Bem, a marca é uma marca que não há ali na máquina!
– Não me diga! – Gracejou Clara.
No desespero de uma resposta que convencesse, Peres recuou três anos e recordou-se que um amigo que passara férias na Indonésia, tinha dali trazido uns cigarros que misturavam tabaco e cravo da Índia e que, obviamente, não estavam disponíveis em Portugal em qualquer local, se é que estavam de todo em algum.
– É, ali não há. Chama-se Sampoerna. – Antes de dar tempo a Clara para pensar no que acabara de lhe dizer, Peres assoberbou-se de coragem e pediu:
– Posso sentar-me na sua mesa?
Clara hesitou na resposta, mas acabou por aceder relutantemente. Fitava a entrada, como fita quem parece aguardar por algo ou por alguém, consumida nos seus pensamentos mais profundos, sobre o amor, o abandono e a esperança.
Peres admirava-lhe as feições, o rosto bem torneado, os lábios carnudos e as longas pálpebras. Aquele belo rosto feminino e o que demais o acompanhava, tinham em Peres o efeito da melhor das cocaínas. Enquanto Clara se perdia na porta de entrada, Peres perdia-se em Clara, totalmente absorto em pensamentos libidinosos.
– Então, não fuma? Ou não gosta destes? – Interpelou Clara, voltando-se num repente para Peres, surpreendido pelos olhos do rosto que contemplava.
– Eh, bem… eu… sim… claro… Um cigarro, pois!
Clara chegou-lhe o maço de tabaco e Peres retirou um. Levou-o aos lábios, secos pelo nervosismo que regressava em dose redobrada, após uma centelha de acalmia e acendeu-o. Sorveu um pouco de fumo, lentamente, reteve-o um pouco na boca reclusa e lançou no ar uma baforada masculina. – Afinal ia conseguir – cogitou Peres, que começou a ganhar confiança no seu fumar pouco usual.
André olhava-o por detrás do balcão, tentando esconder os dentes cariados que um sorriso largo não deixava.

Fria caligrafia

Originally posted 2015-02-04 00:14:34.

Fria CaligrafiaFora… lá fora o vento sibilante,
o chuvisco gelado do Inverno…
O Inverno humano.
Rosto no vidro batido… rosto dilacerado.
Agora o “já” eterno…
Lá fora o Inverno.
Vago… o pensamento!
Fome do outro lado…
A força, raiva… raiva… lá fora o Inverno!
O zumbido repentinamente estatelado… o zumbido.
A voz… por terra o pedaço vivo… de humanidade morta!
A destruição quente… Quente o Inverno?
Lá fora o frio… o Inverno frio.
Fome virgem deste lado?
Abundância… fome parida!
Agora sim! A fome parida…
Gritos… gritos… tantos gritos.
O desespero solitário lido no rosto…
Rosto no vidro batido… partido!
E o Inverno cá dentro…
A pele nua… no frio.
Pesado o pedaço morto… aquele rosto no vidro antes batido.
Lágrimas pelo rosto despedaçado…
Agora é o Inverno, o pedaço gelado… tudo gelado.
A terra quente… por terra o morto… frio.
Agora o “já” eterno… a ausência do rosto no Inverno…
O Inverno no rosto!
O sentir… um sentimento ido… um pedaço…
Lá fora o vento sibilante… o Inverno… o chuvisco gelado…
… a morte!

(Meda, 1982)