Suicídio

suicidio

O desespero e a solidão de
Uma vida
Sem sentido
Apenas cortada nas veias do tumulto de
Um imaginável suicídio com o seu homem
O vidro transparente é o reverso de
Um faduncho na vida que pode terminar a
Qualquer instante… como no filme da tevê gorda capitalista
Arauto da desgraça suprema da raça… meretriz raça humana
Reminiscências infantis de uma memória atualizada
A casa decrépita e as bonecas de trapo em tardes de agosto
Virginal e inevitavelmente casada
Dias de feliz aparência de felicidade “ad eternum”
(mentira, mentira, tudo mentiras)
A hora vai tardia e a cela é intolerável
As pernas inchadas pelo peso do passado
O dorso arqueado ao admirável espectro do futuro
Guinchava ruidosamente sons insuportáveis
(não te suporto, porca, não te suporto, morre, cadela)
E sentiu-se só, frágil como a alma, como o nada, o
Nada do seu homem, olhado com ternura
Morto na fatalidade de ambos serem entes num
Mundo à deriva
Suicídio e pronto

Todos Mortos

Todos Mortos

Ruo, construo, desconstruo, reconstruo, num ajuste curvo
de uma abóboda celeste incoerente
de um fogo efémero que arde mas não queima
como a insignificante morte dos antepassados,
depois da dor, morte e terrestres seres moídos
em impulsos incoerentes de glória falsa
efemeramente enganosa.
Proxenetas do pai no seu dia, sem genetriz nem descendente que o acoite.
Triste macaqueação e um inútil ser filho da mãe.
Aspiro a armas e canhões nunca assinalados em qualquer parte
num retângulo de homens difíceis, génios do horror nativo,
extenuados da inteligência sobredotados da depredação,
verdugos do povo madraço macambuzio prenhe de revoltas
encerradas nas paredes obscuras dos tugúrios da imigração.
Todos mortos, todos mortos… filhos da puta!

Chuva assassina

Chuva assassina

Debruçado na minha varanda
Escuto o murmúrio da chuva que cai reta
Deixo a noite envolver-me e abraço-a
Como a uma amante recente
Onde tudo é volúpia e desejo incontrolado
Semicerro o olhar e engendro o devir
A paranóia doentia do dia a seguir à noite
Persisto teimosamente e com desvelo a
Existir no ânimo da escuridão
Olho o horizonte e nada alcanço que não tenha visto já
Apenas o mesmo local, agora ensopado, telúrico
Os avejões já decrépitos
Os companheiros de tantas disputas
Clamam por mim e não os escuto
O ruído não se permite esta noite
Ainda que de amigos moribundos
O compasso da chuva mantém-se e danço ao seu som
Percorro, bailarino, o salão de festas
A minha varanda e a minha chuva
Encharco os cabelos esparsos e humedeço os ossos que me doem
Um sofrimento que me arrasta para o precipício
Bailo e percebo que o fim está perto
Chuva assassina

Noites de Valéria

Tombámos mortos de alcoól e Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente, entre o trago fácil de um uísque ordinário e o afagar caloroso do sexo humedecido. Jorge sorria matreiro.
O ar da sala tragava incolores os odores da festa, que, de paredes nuas, só um astuto e, no entanto, miserável cabide presenciava. A mesa do talho estava lá para estar no memento da aventura, sem que mais explicações fossem necessárias.
Valéria era louca e entorpecia-nos os sentidos com conversas estrebuchantes de palavras ordinariamente viscosas. Gozávamos o hálito ilustrado de amantes que Valéria exalava da boca piorrenta, adivinhando os que lhe sugaram os mamilos até à exaustão.
Valéria e Jorge entumecidos.
Em acto de alucinante desvario toma-a de assalto sobre a mesa de talho, cujo mármore ornamentava a cozinha excêntrica de Valéria. Contorciam-se. Ninguém ousou mexer-se e todos aplaudimos o acto de brava coragem. Assistíamos e queríamos gozar o sentido próprio da festa masturbando-nos num amontoado de carne erecta, que transpirava ofegante a penugem basta da alcatifa que nos absorvia o ser.
Caiu a máscara e as paredes escureceram quando o mundo penetrou Valéria, a casa e o que restava dos convivas que jaziam mortos num orgasmo inacabado.
Jorge cuspiu sangue e confrontou a existência com a morte.
Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente.
Jorge sorria… morto!

Eis a nova!

Satanás tal como visto no Codex Gigas

Soltai a raiva que vos consome feras demoníacas,
Que o gélido frio traz o dócil sopro da morte escaldante.
Soltai o medo que anseia percorrer as vielas que pisais.
O reino que desejastes vem chegando.
O reino dos tórridos infernos, de ódio inflamados.
Eis a nova!
Presenciai a silhueta do poder eterno,
Enfezados terrores de verões escaldantes.
Entusiastas da guerra, da morte e da vingança,
Escutai os ventos do além, da morte, que vem cansada
pela pressa que a traz.
Aclamai-o, porque em grandiosidade chega!
Aclamai-o, que vozes moribundas de dor deseja ouvir!
Ei-lo!
Entrada triunfal do rei digno do reino de almas desnudadas ao vento.
Ei-lo, o eleito: Satanás!


Índios e Vaqueiros

Havia répteis:
lagartos e ministros multinacionais da cultura fumada
nos espelhos da casa branca que,
corroída pelo cair da democracia ocidental,
comia o monco das minorias proliferantes na zona Este
dos bairros mal cheirosos de Chicago.
Colhíamos alegres a marijuana ao cair da tarde nova iorquina,
enquanto da Califórnia chegava a senilidade dos presidentes,
os secretários desfloravam a virgindade das putas americanas e
os assaltantes passeavam em ferrugentas viaturas da maldição
as velhas encerouladas,
corredores estéreis da possibilidade dos filhos do metropolitano.
Num adormecer de tardes escuras, trouxemos de Los Angeles os rituais
dos ácidos franciscanos e percorremos voadores o universo da galáxia
aspirando o nevoeiro tóxico que embrenhava os pneus da quinta avenida.
Eu sorria esburacado ao sangue que me adornava a fronte desfeita da máfia citadina.
Sim, eu vendia castanhas!