747

Originally posted 2018-03-07 07:19:35.

Matando o papaCarbónicas as cidades do dióxido,
envenenaram cedo os rapazes e
corriam de cio na venta mulheres
por entre passeios empedrados de aldeias montanhosas.
Calculavam-se metricamente as possibilidades:
ascensão florida no cemitério e
o verde-escuro dos táxis acelerava veloz
cantigas de Edith Piaf.
Era ontem e hoje que caía sórdido e balofo
na armadilha das lambidelas do poder,
lembrando aos pecadores da carne puritana,
uma pasta ensanguentada, escorregadiça, lúgubre.
O Santo Oficio bailou na morgue
a dança ácida da chuva experimentalmente atómica.
O padre ajoelhou cabotino no altar da hipocrisia e
no pânico da revelação do Cristo crucificado
no monte das oliveiras;
cabelo oleoso no azeite das lamechices beatas.
747, caiu!
Todos caímos e
o sentido da escrita cai a pique nas “Bic” da ignorância.
Corpos apodrecidos aos milhares,
roídos pelos abutres do poder,
cromos de uma colecção sem caderneta.
Ciprestes cobertos de um negro carregado e
os mortos que riam do destino aéreo de aterrar
os cornos num descampado qualquer,
quando o voo perde a altitude da paz do Senhor,
sem que ainda os sobretudos do Inverno moral
caiam nos jazigos das mortalhas cantantes.
Achei divertido ter vontade de estrebuchar num jantar canibal e
condenar os criminosos à forca.
Como no “far-west”!

Suicídio

Originally posted 2015-02-04 00:18:26.

suicidio

Suicídio

O desespero e a solidão de
Uma vida
Sem sentido
Apenas cortada nas veias do tumulto de
Um imaginável suicídio com o seu homem
O vidro transparente é o reverso de
Um faduncho na vida que pode terminar a
Qualquer instante… como no filme da tevê gorda capitalista
Arauto da desgraça suprema da raça… meretriz raça humana
Reminiscências infantis de uma memória atualizada
A casa decrépita e as bonecas de trapo em tardes de agosto
Virginal e inevitavelmente casada
Dias de feliz aparência de felicidade “ad eternum”
(mentira, mentira, tudo mentiras)
A hora vai tardia e a cela é intolerável
As pernas inchadas pelo peso do passado
O dorso arqueado ao admirável espectro do futuro
Guinchava ruidosamente sons insuportáveis
(não te suporto, porca, não te suporto, morre, cadela)
E sentiu-se só, frágil como a alma, como o nada, o
Nada do seu homem, olhado com ternura
Morto na fatalidade de ambos serem entes num
Mundo à deriva
Suicídio e pronto

Noites de Valéria

Originally posted 2015-02-04 00:17:26.

Tombámos mortos de alcoól e Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente, entre o trago fácil de um uísque ordinário e o afagar caloroso do sexo humedecido. Jorge sorria matreiro.
O ar da sala tragava incolores os odores da festa, que, de paredes nuas, só um astuto e, no entanto, miserável cabide presenciava. A mesa do talho estava lá para estar no memento da aventura, sem que mais explicações fossem necessárias.
Valéria era louca e entorpecia-nos os sentidos com conversas estrebuchantes de palavras ordinariamente viscosas. Gozávamos o hálito ilustrado de amantes que Valéria exalava da boca piorrenta, adivinhando os que lhe sugaram os mamilos até à exaustão.
Valéria e Jorge entumecidos.
Em acto de alucinante desvario toma-a de assalto sobre a mesa de talho, cujo mármore ornamentava a cozinha excêntrica de Valéria. Contorciam-se. Ninguém ousou mexer-se e todos aplaudimos o acto de brava coragem. Assistíamos e queríamos gozar o sentido próprio da festa masturbando-nos num amontoado de carne erecta, que transpirava ofegante a penugem basta da alcatifa que nos absorvia o ser.
Caiu a máscara e as paredes escureceram quando o mundo penetrou Valéria, a casa e o que restava dos convivas que jaziam mortos num orgasmo inacabado.
Jorge cuspiu sangue e confrontou a existência com a morte.
Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente.
Jorge sorria… morto!

Eis a nova!

Originally posted 2015-02-04 00:16:40.

Soltai a raiva que vos consome feras demoníacas,
Que o gélido frio traz o dócil sopro da morte escaldante.
Soltai o medo que anseia percorrer as vielas que pisais.
O reino que desejastes vem chegando.
O reino dos tórridos infernos, de ódio inflamados.
Eis a nova!
Presenciai a silhueta do poder eterno,
Enfezados terrores de verões escaldantes.
Entusiastas da guerra, da morte e da vingança,
Escutai os ventos do além, da morte, que vem cansada
pela pressa que a traz.
Aclamai-o, porque em grandiosidade chega!
Aclamai-o, que vozes moribundas de dor deseja ouvir!
Ei-lo!
Entrada triunfal do rei digno do reino de almas desnudadas ao vento.
Ei-lo, o eleito: Satanás!

Satanás tal como visto no Codex Gigas