Pompeia

Originally posted 2014-02-23 19:50:38.

Quadradamente retirámos a Sul.
As tropas jaziam inertes numa espera de morte rápida,
brandindo sabres de guerreiro amedrontado e
a majestade romana erguia hirta,
quente,
a estátua da civilização laica,
enquanto o vulcão aquecia, num sorriso cálido
a Janika.
Vulcano soltou ordenadamente os condenados ao terror e
pretendeu possuir, num beijo roçado
nos átrios do templo de Poseidon,
as filhas do Império que estouravam num odor fétido a
sexo e alimentação.
Baco escorropichava corrimentos femininos dos
copos da bestialidade ibérica e
soltava ejaculações alcoólicas de touro enraivecido.
Num Inverno primaveril de flores murchas
os deuses caíram esquálidos no
beco tétrico das avenidas de Pompeia e,
orando sonolenta, Vénus possuiu as
filhas do lesbianismo ministerial.
Era Júpiter que ria sentado no
trono invertido das nacionalidades orientais
da península dos alarves.
Um vulcão de terra prometida rodeou os espaços,
as facas voaram numa dança macabra de
terror infinito e
Pompeia adormeceu num sono profundo de
metabolismos eternos.

Tundra

Originally posted 2013-09-07 00:41:42.

guerracolonialangolacabecas.jpgTipos que misturaram as entranhas na terra barrenta da tundra.
Dependuraram corações exangues em altos embondeiros,
projectados do solo pelo músculo de uma anti-pessoal.
Saíram de lá tocos magníficos!
A selva verde tornada numa antonímia vermelha pelas explosões da libertação,
esperando o castanho da terra.
Num ápice a esperança de vida tolhida pelas minas e
armadilhas do destino pátrio.
Os despojos do dia num saco negro e
um bilhete de regresso ao solo materno e
às carpideiras da ultima viagem em terra firme.
Pó ao pó com guarda de honra e
tiros certeiros aos pombos do padastro que gozou da morte,
no entorpecimento da embriaguez diária.
Um buraco de dois metros e
a madeira assenta silenciosa na memória dos demónios da noite,
que abrem finalmente os olhos e
o calor da putrefacção alimenta o orgulho da nação,
inchada de jovens cadáveres chacinados.
Sim, sem coragem não há glória.
Glória à mutilação, violação insana,
crânios arreganhados pelo movimento veloz de lâminas artesanais,
estômagos vazios perfurados pela rectidão dos projecteis.
Regresso mutilado,
cadeiras rodadas e muletas de madeira traumatizada,
apostas na morte lenta do esquálido subsídio governamental.
Formar!…
À vontade!

*foto: autor desconhecido

Chuva Assassina

Chuva assassina

Originally posted 2018-12-07 17:51:53.

Chuva assassina

Debruçado na minha varanda
Escuto o murmúrio da chuva que cai reta
Deixo a noite envolver-me e abraço-a
Como a uma amante recente
Onde tudo é volúpia e desejo incontrolado
Semicerro o olhar e engendro o devir
A paranóia doentia do dia a seguir à noite
Persisto teimosamente e com desvelo a
Existir no ânimo da escuridão
Olho o horizonte e nada alcanço que não tenha visto já
Apenas o mesmo local, agora ensopado, telúrico
Os avejões já decrépitos
Os companheiros de tantas disputas
Clamam por mim e não os escuto
O ruído não se permite esta noite
Ainda que de amigos moribundos
O compasso da chuva mantém-se e danço ao seu som
Percorro, bailarino, o salão de festas
A minha varanda e a minha chuva
Encharco os cabelos esparsos e humedeço os ossos que me doem
Um sofrimento que me arrasta para o precipício
Bailo e percebo que o fim está perto
Chuva assassina

Ultramar

Da janela avistámos o Rego.
Solicitámos a cegueira dos veículos.
A tarde envolvia, quente,
o ar transbordante de oralidades mal concebidas,
ao que ripostámos adormecendo o corpo na alma arrasada
pelo som áspero de um transporte explodindo lentamente,
como se a lassidão da atmosfera estivesse agora mais perto.
O estoiro abriu as janelas aos guardiães das doenças fatais,
que mastigavam a carne apodrecida.

Claro!

Originally posted 2018-09-08 20:52:03.

Infante D. HenriqueAcida e velozmente penetro a
brancura exígua da
casa de banho antiga.
Ajoelho em oração.
Um sanitário mais onde, escuros e inertes,
jazem os restos de um dia sem qualquer coisa e
agradeci.
Sacrifico Sebastião.
Inicío o ritual.
Imagens, imaginário e tudo o mais concreto,
passa interurbano.
“Flash”… e visiono o incendiado Império de D. Henrique,
onde a nau chama a Oriente e a África não tarda de
sexo e abraços com marinheiros sedentos de terra quente e
sangue dos infiéis que estatelam o crânio envolto
na terra árida do Norte.
Sul.
Nada. E Henrique sorve a pátria no
mesmo hausto em ejacula colónias.
Nada. Aí está.
Estava já dentro e
eu próprio me ingeria, qual cerveja gelada em tarde tropical
onde quer que o mundo se encontre
em dia de nuvens sem água.
A areia não corria mais para aquele lado e
o oceano secara.
Praças eram o que havia.
Tantas com a força do verbo cristianizar
que os orgasmos de um navio atracado no
mais boquiaberto dos portos
não conseguiriam satisfazer tais lábios, do
desejo louco de ócio e moribundez.
-“Terra! Terra!”, gritava-se ali.
-“Remem!” Remem, pedaços de inconsciência lusa!”
gritavam os cães de Aljustrel
quando a Virgem apareceu aos pastores
que erravam bebedamente por entre a
boiada de cornos erguidos em preces opostas.
Rodopia Cristo e rodopia o Demónio e
a excentricidade oblíqua termina
numa dança que sobrevoa rasante os
pecados em que a carne é fraca e
abre estaladiça a flor que a inventa.
Quando pariremos nós a fome do terceiro mundo?
-“Avante tropas! Os cães não estão longe.
Dêem-lhes gasolina a beber e um cigarro a fumar.”
Não!
Não!
O dia ía alto e
só à noite a terra é fresca e
a cabeça consegue pensar.
Não tens frio?
Estava onde o houvesse.
E, sem dar por isso, hoje
era um ontem sem sentido,
perdido entre paços de paredes altas e
botas de um morcego coxo
escritor do ar, da luz e do tédio,
desaparecidos pelo esgoto
em que encontrei pela primeira vez a
nau de Henrique Piloto.
-“Ò leme, homem, ò leme.”
-“Senhor, e o Brasil?”
-“Merda, já me esquecia desse! Marcha à ré!”
Santo Infante.
Binómio Justo.
Olé!