Planeta dos catos

Poema em ti

Originally posted 2015-02-04 00:17:36.

I am nudePodias fazer-me um poema!
Um canto que falasse do teu sentir.
Não uma elegia em que discorresses sobre o teu passado,
Pesado, castrador, um negro edema.
Antes um escrito sobre o presente e quiçá o devir.

Atrás ficou um tanto tempo.
Uma época em que sobreviveste aos dias.
Datas sem interesse, também momentos de prazer, sim,
Mas de seres que se estranham no seu intimo,
Num desmoronar do que por certo tomado havias.

Escreve sobre o bem que me queres,
A felicidade que te dou e da que ainda tenho para te dar.
O quanto desejas o meu corpo nu.
Fala mesmo do odor da carne, se puderes.
Do amor que fazemos à ténue luz do luar.

Olha, fala de como os nossos sentires se dão,
De como os nossos pensamentos se assemelham.
Podias escrever ou falar, já nem sei que verbo usar,
Uma prosa rimada enaltecendo a paixão,
Da coragem que te dou, do que as nossas almas espelham.

Podias falar do que quisesses, desde que fosse de mim,
De nós, das bocas apaixonadas que se unem sem pudor,
Das mãos que se abrigam sob as roupas.
Ou então grita, grita como quando repetes, sim, sim…
Alardeia o que tens por mim, se paixão ou amor.

Faz isso. Ou já fizeste?
Acabaste de fazer!
Sentindo-me os desejos mais íntimos e obscuros,
Na minha boca colocaste, os versos que agora me deste.
Versos que lidos e sentidos, me dão prazer!

Por um pacote de tabaco

Originally posted 2015-02-04 00:16:57.

elaPor um pacote de tabaco

Deu por si de jornal pousado e de olhar fixo no copo meio bebido, decidindo naquele instante que não iria esperar pelas informações do André. Ele próprio tinha que lidar com a ansiedade e incerteza de que estava possuído, qual personagem cinematográfica a carecer do exorcismo de um profissional da Santa Igreja, e ir em frente com tudo o que tinha e que, a bem dizer, era uma mão cheia de nada!
No entanto, o plano estava bolado: ir à máquina de sustentação do vício levantar um maço de tabaco e, de permeio, entabular conversa com Clara. O plano só tinha duas falhas: Peres nunca fumou e não sabia ainda que dizer a Clara, para início de conversa.
Alguma coisa se há-de arranjar – pensou.
Levantou-se decidido. Tomou o caminho mais curto para o balcão, evitando mesas e cadeiras mal arrumadas e pediu:
– André troque-me aí cinco euros para a máquina, se faz favor.
Confuso, por sabê-lo não fumador, André, devolveu-lhe a deixa com uma interrogação, tudo menos própria para o silêncio da sala:
– Para a máquina? Qual máquina? A do tabaco?
Peres roborizou, encolerizado pela inoportunidade do questionário e redarguiu:
– Claro, para qual havia de ser? Tem cá outra? Não pois não? Então!
– Mas o engenheiro não fuma!
Irra que o gajo é burro – cogitou Peres.
Entretanto, Clara notara já que havia algo em que, pelos trejeitos e gestos de um e outro, empregado e cliente pareciam estar em desacordo, sem contudo entender qual o motivo da discórdia.
– Está bem ó André, mas agora quero fumar, pronto! Além disso não tenho que dar-lhe quaisquer explicações. Os pulmões não são seus, portanto…
– Ó Engenheiro, tem razão, mas como nunca o vi a fumar…
– André, chegue aqui – pediu baixinho Peres, baixando os olhos enquanto chamava o seu interlocutor com o indicador direito. Aquele encostou-se o mais que pode e que o balcão permitia, ao rosto do engenheiro, para este lhe segredar:
– É pá, você cale-se carago! Não vê que é para ir meter conversa com a gaja!
Quase que abocanhando a orelha de Peres, o empregado do Moinho, não deixa os seus créditos por mãos alheias e retorque em surdina:
– E para que é o tabaco? Vai mocá-la com cigarros? Olhe lá, quer que eu vá lá dizer que o engenheiro está interessado em dar-lhe uma palavrinha?
– Obrigado André. Se me desse os cinco euros em moedas já era bom…
– Bem, o engenheiro é que sabe – a demanda por cinco moedas terminara e André, finalmente, trocava a nota de cinco por outras tantas moedas de euro.
De posse das preciosas moedas, Peres fixou os olhos na máquina do tabaco, enquanto pensava na marca de cigarros que iria comprar. O corpo vibrava-lhe com um nervoso miudinho e fez questão de não olhar para Clara enquanto se dirigia para a dita máquina, fingindo-se desinteressado.
Avançava decidido. No entanto, sentia uma involuntária rigidez nas pernas, que lhe impediam um andar natural, fazendo de Peres um morto-vivo que não dobra os joelhos nem por nada.
Determinado, continuava a sua heróica demanda por um pacote de tabaco, até que, a menos de dois metros do alvo, a perna de uma das cadeiras mal arrumadas do café, se lhe atravessou com firmeza no caminho e fez Peres cambalear errático até, por fim, cair de borco no colo de Clara.

CAPITULO I

CAPITULO II

tabaco_port_suave

Um cigarro, pois!

Originally posted 2015-02-04 00:14:57.

tabaco_port_suavePeres levantou-se num pinote de face ruborescida e pernas bambas. Os presentes riam e comentava entre si o sucedido ao engenheiro. Este não sabia que fazer nem que dizer. Olhou ao seu redor e da boca sai-lhe um tremido – Desculpe! Depois quedou-se mudo, esquecido do tabaco.
– Ora essa, são coisas que acontecem. – Retorquiu Clara. – Não se preocupe, olhe se caía directamente no chão! Ficava logo a falar fofinho, sem os dentes da frente.
A mulher tem sentido de humor, cogitou Peres que avançou com um – Pois era!
– A menina desculpe mais uma vez, mas nem dei pela cadeira. Espero não a ter aleijado. Vinha à máquina…
– Pronto, agora já está junto da máquina e pode servir-se.
– Pois é! – Peres fitou os maços de tabaco, cada um de sua côr, sem saber qual o que devia escolher. Ali permaneceu hirto e hesitante o tempo suficiente para Clara perguntar:
– Então não tem a sua marca?
O rubor nas bochechas de Peres acirrou-se e gaguejou, que não, que não havia a sua marca preferida, teria que ir a outro lado.
– E que marca é essa. – Interrogou Clara. – Posso sempre oferecer-lhe um cigarro, se gostar destes. – Continuou enquanto lhe mostrava o seu maço de cigarros.
Peres nem estava em si e as mãos tremiam-lhe de medo por duas razões: a primeira era Clara, que se mostrava compreensiva perante a sua aparatosa queda e o faziam pensar que poderia com ela entabular uma conversa que o levasse mais além, apesar de não saber onde; a segunda é que nunca tinha fumado em cigarro na vida, salvo uma ou duas experiências mal sucedidas na escola primária em que os colegas mais velhos o convenceram que podia deitar fumo pelos olhos. Para isso tinha que inspirar fundo à primeira chupadela. Foi o que fez. Nesse dia ficou ciente de que nunca conseguiria deitar fumo pelos olhos ou que antes disso os pulmões lhe sairiam pela boca.
– Bem, a marca é uma marca que não há ali na máquina!
– Não me diga! – Gracejou Clara.
No desespero de uma resposta que convencesse, Peres recuou três anos e recordou-se que um amigo que passara férias na Indonésia, tinha dali trazido uns cigarros que misturavam tabaco e cravo da Índia e que, obviamente, não estavam disponíveis em Portugal em qualquer local, se é que estavam de todo em algum.
– É, ali não há. Chama-se Sampoerna. – Antes de dar tempo a Clara para pensar no que acabara de lhe dizer, Peres assoberbou-se de coragem e pediu:
– Posso sentar-me na sua mesa?
Clara hesitou na resposta, mas acabou por aceder relutantemente. Fitava a entrada, como fita quem parece aguardar por algo ou por alguém, consumida nos seus pensamentos mais profundos, sobre o amor, o abandono e a esperança.
Peres admirava-lhe as feições, o rosto bem torneado, os lábios carnudos e as longas pálpebras. Aquele belo rosto feminino e o que demais o acompanhava, tinham em Peres o efeito da melhor das cocaínas. Enquanto Clara se perdia na porta de entrada, Peres perdia-se em Clara, totalmente absorto em pensamentos libidinosos.
– Então, não fuma? Ou não gosta destes? – Interpelou Clara, voltando-se num repente para Peres, surpreendido pelos olhos do rosto que contemplava.
– Eh, bem… eu… sim… claro… Um cigarro, pois!
Clara chegou-lhe o maço de tabaco e Peres retirou um. Levou-o aos lábios, secos pelo nervosismo que regressava em dose redobrada, após uma centelha de acalmia e acendeu-o. Sorveu um pouco de fumo, lentamente, reteve-o um pouco na boca reclusa e lançou no ar uma baforada masculina. – Afinal ia conseguir – cogitou Peres, que começou a ganhar confiança no seu fumar pouco usual.
André olhava-o por detrás do balcão, tentando esconder os dentes cariados que um sorriso largo não deixava.

Incertezas

Originally posted 2015-02-04 00:11:48.

traumaÀ ligeireza do passo feminino, as pernas que ainda há pouco eram nada mais do que uma sombra, passaram voluptuosas em frente a Peres, que chumbou os olhos nas nádegas que as encimavam. A boca abria-se um pouco mais e não tardava começaria a babar-se.
A saia direita de ganga e algodão que Clara vestia, fazia-lhe sobressair as formas femininas adelgaçadas e elegantes, mostrando bem acima do joelho. Transpirava sensualidade. À medida que ia entrando, outros clientes do Moinho voltavam a cabeça e admiravam Clara, que desinibida sentou as nádegas que Peres fitara, numa das três cadeiras da mesa do fundo, junto à máquina de venda de tabaco.
Ficara de frente e Peres podia agora disfarçadamente admirar o busto farto de Clara, que transbordava da sua blusa branca, e o qual apenas os longos cabelos marrom de vez em quando cobriam.
Peres começou então um exercício mental de conjecturas e adivinhas sobre quem seria aquela mulher, na casa dos quarenta, que nunca por ali constara e cujo corpo escultural começava a despertar nele um intenso desejo.
Não admirava, Peres, com seu ar reservado e distante, não tinha muita sorte nas suas conquistas, mais das vezes porque nem sequer lhes dava começo, de modo que havia já algum tempo que não interagia sexualmente com outro ser.
Estava curioso e fez sinal a um dos empregados do bar para que se aproximasse, o que um deles fez.
– Ó André, não olhe por favor, mas conhece aquela senhora que está sentada junto à máquina do tabaco?
André disfarçou um olhar ligeiro e esboçou um sorriso, julgando saber o motivo da questão e respondeu solícito:
– Não, nunca a vi por aqui. É um belo pedaço! – Enfatizou.
– Está bem, não ajudou nada. Se souber alguma coisa você diz-me? – Perguntou Peres, ávido de informação.
– Claro, Engenheiro.
Clara pediu um café cheio e puxou de um cigarro, que acendeu, protegendo-o com a mão esquerda do ar forçado, que o sistema de ventilação projectava naquela mesa.
Peres, de vez em quando, levantava os olhos do jornal do dia e olhava de viés para a morena desconhecida. Quase esquecera o bourbon. A sua cabeça era um turbilhão de ideias. Engendrava métodos de aproximação que pudessem ser um êxito junto de Clara. Seria uma conquista e tanto, pensou.
Gostava do que via. Contudo, recordou-se de casos do seu passado e sabia que não se deve julgar o livro pela capa. Como seria Clara? O que podia encontrar-se para lá da sua beleza natural? Mas isso importava? Incertezas para as quais o seu frenesim pensativo não tinha resposta. Ainda!