Noites de Valéria

Originally posted 2015-02-04 00:17:26.

Tombámos mortos de alcoól e Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente, entre o trago fácil de um uísque ordinário e o afagar caloroso do sexo humedecido. Jorge sorria matreiro.
O ar da sala tragava incolores os odores da festa, que, de paredes nuas, só um astuto e, no entanto, miserável cabide presenciava. A mesa do talho estava lá para estar no memento da aventura, sem que mais explicações fossem necessárias.
Valéria era louca e entorpecia-nos os sentidos com conversas estrebuchantes de palavras ordinariamente viscosas. Gozávamos o hálito ilustrado de amantes que Valéria exalava da boca piorrenta, adivinhando os que lhe sugaram os mamilos até à exaustão.
Valéria e Jorge entumecidos.
Em acto de alucinante desvario toma-a de assalto sobre a mesa de talho, cujo mármore ornamentava a cozinha excêntrica de Valéria. Contorciam-se. Ninguém ousou mexer-se e todos aplaudimos o acto de brava coragem. Assistíamos e queríamos gozar o sentido próprio da festa masturbando-nos num amontoado de carne erecta, que transpirava ofegante a penugem basta da alcatifa que nos absorvia o ser.
Caiu a máscara e as paredes escureceram quando o mundo penetrou Valéria, a casa e o que restava dos convivas que jaziam mortos num orgasmo inacabado.
Jorge cuspiu sangue e confrontou a existência com a morte.
Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente.
Jorge sorria… morto!

O Jorge morreu!

Originally posted 2015-02-04 00:15:30.

UHF - Jorge morreuVivia eu, juntamente com um número indeterminado de outros seres, em pleno Bairro Alto lisboeta, numa habitação a que chamavam pensão, quando um dia, de uma telefonia sem fios, de um quarto contíguo, me chegou o som abafado de “Cavalos de Corrida”, dos UHF. Assim acordado e de forma estremunhada, elevei o torso e apoie os cotovelos no colchão que ocupava na parte inferior do beliche, olhando fixamente para a porta dupla, alta, creme e suja, que dividia os meus parcos aposentos dos de onde provinha o som. Apanhei como que um KO matinal. Como se tendo estado a dormir, tivesse acordado e, sem mais, um directo de esquerda me colocasse de novo em hibernação. Que raio era aquilo?
Fui para o banho à socapa. Naquela altura, tinha já ultrapassado o limite máximo de dois banhos semanais, tal como o contrato verbal estabelecido entre os moradores e a proprietária estabelecia. Podíamos, no entanto, lavar tudo todos os dias: “as partes” e os pés e os sovacos. Mas, banhos completos, só duas vezes por semana. Tinha acabado de entrar. Debaixo do chuveiro, de chinelos a cautela, não fosse apanhar um valente “pé de atleta”, a água quente sabia bem. Era Outono ou Inverno e a capital estava fria. A casa estava fria. E a água acabou, como em tantas outras vezes, por ficar fria. A senhora de óculos, gorda e porca, apercebeu-se da minha violação contratual e desligou o esquentador, a meio daquele primeiro prazer do dia. Lá acabei a molha ao frio e com as partes recolhidas. O banho frio tem as suas virtudes. Retira a erecção matinal e qualquer intenção de a recuperar a meio da lavagem.
Descendo até ao Camões e por aí adiante até à Rua do Carmo, entro na Valentim de Carvalho e lá estavam eles, os cavalos de corrida. Fiquei contente por cá já termos aqueles cavalos. Já era tempo de alguém produzir alguma coisa de jeito. Mais coisas haveriam de surgir, e a avidez das editoras havia de tentar transformar merda em ouro a toda a força. Felizmente poucas vezes o conseguiram e o que era ouro, ouro ficou.
Sem estéreo ou outra coisa que reproduzisse vinil nunca cheguei a cavalgar aqueles cavalos. Mas as minhas investigações haviam de conduzir-me, mais tarde, ao primeiro registo dos UHF, altura em que, aliás, fiquei a saber que o Jorge tinha falecido, porque eles próprios mo comunicaram:
O “Jorge morreu”! Estávamos em 1979.