Os meus vizinhos são números!

Originally posted 2015-02-04 00:12:35.

Os meus vizinhos são números!

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Num tempo em que as relações interpessoais estão em crise e a solidariedade é uma palavra vã, conhecemos os que estão fisicamente próximos, ou as relações de vizinhança não são mais do que conformismos soturnos, traduzidos nas saudações envergonhadas da saída e do regresso a casa?

Recordo com alguma nostalgia o tempo em que entrava e saía de casa dos meus pais sem ter que transpor164.jpgtar comigo uma chave de casa. Não que a casa a não tivesse, mas pelo simples facto de que ela estava sempre no que local onde pertence e que lhe dá uso: a fechadura. Ao sol durante o dia, do lado do aconchego do lar, à noite. Da mesma forma recordo os serões em que os meus vizinhos vinham conviver com a minha família, e vice-versa, fosse verão, fosse Inverno, porque motivo de conversa havia sempre. As maleitas da horta ou o madraço do tempo. Ou, quem sabe, a doença da D. Alice que lhe tolhe os movimentos. Ou, porque não, o produto da caça à perdiz daquele dia e as habilidades do cão, a quem não há coelho que escape!
Anos volvidos encontrei-me na cidade com as chaves de casa sempre no bolso. Habitando o mesmo espaço q168.jpgue outros tantos milhões de seres que se cruzam, que não se conhecem, que não querem conhecer-se, que se refugiam no seu habitáculo, preservados como se fugissem da peste bubónica de que parece todos padecem.São assim os meus vizinhos e, ainda que conheça o invólucro que os transporta, dia após dia, não sei quem são. O que fazem. Se são bons ou se são maus entes. Sei apenas que são, porque me cruzo com eles.43-a.jpg
Conheço bem, contudo, o número dos prédios onde residem. Bem, porque só tenho que saber que eles existem, sem vida, apenas identificativos de um local onde habitam seres vivos, tal como uma lápide que indica o local de um defunto. São números inanimados contendo outros números de criaturas vivas. E porque, inanimados, não têm vivências que interesse conhecer, ou possam fazer-me companhia, ao serão, falando da vida e das suas vicissitudes. Do que ambos almejamos na vida. Das nossas aventuras de bar ou de outras traquinices de juventude. Esses números eu conheço. São e é tudo.
Os meus vizinhos são números!

10 thoughts on “Os meus vizinhos são números!

  1. arlindo penso que existe mais pessoas com o memo nome que o meu, pois enviei-te esta mensagem e aparece outra ju, não sei o que se passa: tempos mudaram, são as modernices, que estamos a avançar
    Julieta Faria

  2. Um abraço a todos que por aqui passais e deixais a vossa indelével marca de nobreza e elevação artística!

  3. Estimadissimo Arlindo amante do Filme 01.
    Tens razão. Parabéns pela “humanidade” com que de uma maneira poética e nostalgica elaboras um sentimento superior.
    O Mundo moderno, Mundo cão tem as fronteiras fechadas dentro das portas bloqueadas. As chaves estão cada vez mais sofisticadas, presas ao coração do Homem.
    Tenho vizinhos bons, maus e assim assim.
    Quem tem culpa de serem só numeros, os habitantes desconhecidos que nos rodeiam?
    O grande medo do ser humano não são somente as chaves, mas o querer conhecer os outros e termos medo de nos conhecermos a nós próprios.
    Um dia, a solidão terá o seu fim?
    Grandes desertos de gente aos encontrões na cidade.
    Aqui ao lado…

    Eduardo Nascimento

  4. Somos todos muito diferentes, eu até podia viver sem vizinhos (seres humanos que o acaso fez morar em apartamento vizinhos), prefiro os relacionamento escolhidos aos acasos 🙂

  5. Gostei! Do tópico e do estilo 🙂 Comigo ainda acontece pior. Habito num bloco de apartamentos e muitas vezes me cruzo com outros habitantes desse espaço de cimento, no elevador ou no hall e alguns nem respondem à minha saudação ou sorriso!!!
    Não dá para entender. Na minha infância e juventude também tive idênticas experiências às tuas embora morando na cidade. Conhecia e falava com todos os meus vizinhos, não só do meu prédio, como de outros ao redor. Muitas vezes, depois do jantar, ia com a minha mãe ver televisão a casa da D. Lucinda e isso para mim era “uma festa” 🙂
    Beijos com muita saudade.

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