Jimi Hendrix está vivo!

Originally posted 2018-09-14 22:32:27.

Ainda hoje há quem reclame, sobretudo nos fantásticos USA, ter visto Elvis vivo, não sei se a actuar ou não. Na Europa não há notícia de tal avistamento. Em Portugal, para lá dos pastorinhos de Fátima, cujo santuário vai passar a ser gerido directamente pela Santa Sé, por via das coisas, muito menos. Os que não o viram crêem absolutamente nos que afirmam tê-lo visto. Eu não o vi! Ainda. Digo ainda porque acho que um destes dias o vou ver, aperaltado com o seu fato de gola alta adornado de brilhantes e lantejoulas ou lá o que é que eram. Há quem diga que a gola alta era para esconder o surro do pescoço. Elvis era homem de pouca higiene, dizem os que sabem, salvo se a confusão desta manhã dominical me atraiçoa e falo de outro Elvis, o pai do Rock. Este, Elvis por alcunha e não por nome de baptismo aos olhos do Criador.
Eu não sei se o Elvis está vivo. Sei apenas que o Elvis, pai do Rock, está morto e era coveiro. Não consta, contudo, que tivesse sido ele próprio a cavar a sua sepultura, mas corre à boca cheia no povoado que foi a bebida quem lha abriu. Não interessa.
O que eu sei é que, pelo menos eu vi, o deus da guitarra está vivo. Numa brecha do tempo, entre um poste de iluminação pública da EDP e o muro do seminário de Alfragide, consegui discernir Jimi Hendrix. Bom, era mais um vulto, mas pareceu-me reconhecer-lhe a camisa florida de “hippie” dos anos 60, empunhando uma “Stratocaster”. Era hábito ver por ali músicos supostamente falecidos, que eu sabia estarem vivos, porque os via. Mas nunca tinha visto Hendrix. A estreita brecha apenas permite uma visão em túnel, como as que temos quando o oxigénio deixa de afluir ao cérebro. Mas, mesmo dessa forma, por entre luzes, incluindo a do poste da EDP, via e por vezes ouvia, músicos e músicas. O túnel tinha sempre uma imensidade de reflexos, de vidas passadas e futuras, músicos mortos e outros vivos, de tal forma que por vezes, eu próprio embora já habituado aos truques do túnel duvidava dos meus sentidos. Ao cabo de dez minutos, mais coisa menos coisa consegui, finalmente, ver com clareza: não era Hendrix mas sim Lopez, que me acenava com a certidão de óbito do primeiro. Além disso, não tinha reparado num pormenor importante: este músico não era canhoto. Diabos, mas soava tão igual ao Jimi. Como posso ter-me enganado? A dúvida foi definitivamente desfeita quando Lance se aproximou e disse em americano: “This is Jimi hendrix certificate of death, and I came to take his place.” Mal consegui ouvir as últimas palavras de Lance que aqui reproduzo, porque a brecha não permanecia aberta mais do que dez minutos por dia. Eu compreendia, porque até as brechas têm que descansar. Lance ainda teve tempo de me atirar um disco, dizendo: “This is my last one.” Foram a últimas palavras que lhe ouvi pronunciar.
Depois da brecha fechar  pensei ter estado a viver um sonho acordado. Eu sabia, eu tinha visto Jimi, só podia ser ele! Lopez era apenas um demónio enviado para testar a minha fé.

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