Foskinsmiths

Originally posted 2018-08-19 15:24:52.

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Baco Caravaggio 1597

Hoje marca o início do fim! Ao iniciar estas linhas estava inclinado para o lado da prosápia deprimida e deprimente. Depois pensei: “foskinsmiths (o word não reconhece esta palavra, não sei porquê), estou farto disto, não se fala mais no assunto.” E assim foi! O “foskinsmiths” trouxe-me logo à ideia as noites passadas no quarto feito sala de fumo/discoteca/cozinha do “M”. A coisa era bastante simples: depois do jantar, hábito que se mantém (“old habits die hard”), todos nos reuníamos num dos bares da vila, hoje cidade (não se sabe ao certo porquê), para o café da ordem, que aconchegasse o estômago satisfeito do jantar onde o coelho bravo ainda pulava. Nunca tive o vício do cimbalino, da bica ou do café. Sempre preferi uma cerveja após o vinho do jantar. Caía-me melhor e ajudava a esclarecer as ideias e a abrir horizontes para a noite que se aproximava. Café, ou o que quer que fosse, tomado, percorríamos as ruas numa procissão pagã, entrando e comungando em todas as portas que o divino Baco mantivesse abertas pela noite dentro. Lamentavelmente, a edilidade não compreendia e continua a não o fazer, a devoção dos adolescentes no limiar da idade adulta, prestes a entrar num mundo desconhecido de rotinas, truques, desonestidades, manhas e artimanhas (tudo para conseguir flutuar), na divindade romana e, ainda a noite dava os primeiros passos, já os templos se fechavam e, para evitar a identificação policial por beber fora de horas e pedir dinheiro ao progenitor para pagar a multa no posto local da GNR, a solução eram as capelas privadas. Para quem está de férias no interior esquecido e ostracizado deste país e quer manter os níveis de álcool no sangue suficientemente altos para esquecer as agruras da adolescência, os templos fecharem às 2 da manhã, era criminoso.
O “M” possuía um daqueles templos privados. Decorado com posters de estrelas do planeta pop/rock e com as mais pirosas luzes psicadélicas dos anos 70, que tremeluziam ao som de Jim Morrison ou de David Bowie (ou mesmo, no silêncio absoluto, ao som dos traques do “A”), era suficientemente confortável para em sossego se fumarem os charutos furtados ao pai do “T” ou beberem as garrafas de uísque, martini, etc, furtadas pela janela dos fundos do café da “P”, com a ajuda do seu único e esgrouviado descendente. Se não tivesse sido dia de ter ido aos coelhos, assava-se uma belíssima chouriça subtraída ao fumeiro da época. E por ali ficávamos horas a fio, até raiar o sol, falando das coisas mais banais, das aventuras do dia anterior, das mamas daquela e do cu da outra. Fantásticas lições de vida. Por exemplo, o “T”, por entre baforadas intensas do charuto furtado e um trago de uísque, recomendou a todos os presentes a masturbação à canhota. O prazer era muito mais intenso, dizia. A risada foi geral. Mais tarde alguns confessaram ter realizado a experiência, mas que nem por isso…
Por entre copos e conversa era hábito, pelas 4 da manhã, ver, após silêncio súbito e por entre as cortinas da pequena janela do nosso refúgio, o pai do “M” que assomava ao alpendre de granito da casa e dali do alto urinava copiosamente. Todos nós sabíamos que era das melhores coisas que se podia fazer. Não há dinheiro que pague o facto de podermos mijar do alto do nosso alpendre, sem que ninguém nos moleste, censure ou vilipendie.
À saída combinavam-se as coisas para o dia seguinte e ao chegar a casa cumprimentava o meu pai que se dirigia para o trabalho:
“Bom dia, rapaz.”
“Boa noite, pai.”

7 thoughts on “Foskinsmiths

  1. não tenho palavras sobre aquilo que vi e li, belo trabalho vai em frente teu futuro sorri como um lindo dia de primavera. esta espetacular palavras para quê e só visto e lido. adorei carvalhinhas

  2. Os vícios do café, cerveja, cigarros, charutos, onanismo, ermitismo, etc. são hoje socialmente aceites. Outras coisas menos triviais se passam… que a sociedade não aceita ou nunca aceitará, porque levam à sua própria negação. Mas essas memórias nem sempre são para partilhar…

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