Cuidado com o cão!

Originally posted 2018-01-27 15:32:43.

Beware of the Dog

À luz escassa do monitor deste portátil e a coberto da noite, após um louco e fogoso momento de amor, veio-me novamente à ideia um dos maiores e, porventura, mais subestimado tocador de Blues do século passado: Hound Dog Taylor! E veio-me à ideia não por questões de natureza amorosa, mas porque durante o dia ouvi pela enésima vez, alguns excertos de um dos seus discos, após o ter transformado no formato da moda, MP3, e transposto para o meu leitor pessoal. Um disco que para mim tem um especial significado, como aliás, muitos outros da minha modesta colecção.
Enquanto estudante universitário, migrante do Norte estabelecido na capital, fui fixando a minha residência aqui e ali, ao sabor do que a parca mesada parental me permitia. O quarto da cidade onde me estabeleci por um maior período de tempo (toda a faculdade, na verdade) situava-se em Campo de Ourique. Foi aí que pela primeira vez ouvi na rádio (até porque na altura não havia dinheiro para qualquer hi-fi, nem mesmo low-fi) Hound Dog. Cerca de 1982 anos após a morte daquele a que chamaram “Messias”, na Rádio Comercial passava o “Blues Índex”. Um programa, creio que de periodicidade semanal, dedicado, exclusivamente, à linguagem básica daquilo a que, desde a década de sessenta, chamamos “rock”, como forma abreviada de “rock’n’roll”, o “blues”, ou seja, e de forma muito resumida, o canto dos escravos das plantações de algodão usado no sul dos Estados Unidos, para embalar suas intermináveis e sofridas jornadas de trabalho.
Numa qualquer noite de estudo ou nem tanto, uma vez que, se não se estivesse em época de exames, as noites seriam ou de álcool ou de… álcool, estaria no meu quarto de três paredes e meia (adivinhem lá a configuração geométrica do mesmo), e o “Blues Índex” desafiava os ouvintes a escrevinhar um texto dedicado ao “blues” e ao disco que passava em fundo: “Beware of the Dog”, de Hound Dog Taylor & The Houserockers. Disco editado em 1976, póstumo, portanto, uma vez que Hound Dog não lhe sobreviveu, devido a um cancro que o vitimou aos 59 anos, após um vida inteira dedicada à sua música de eleição e com muito ainda para lhe dar. Contudo, o disco foi editado tal qual The Dog o tinha planeado, a música, a capa e o titulo. Não se trata, contudo, de um disco sombrio de saudade ou homenagem. Hound Dog não o teria querido. Quis sempre ser lembrado com a irreverência que colocava na sua música e na sua vida. Costumava dizer com frequência, “Quando eu morrer não façam um funeral, façam uma festa!”.
Era a primeira vez que ouvia Hound Dog Taylor, mas foi amor à primeira audição. Daí em diante dediquei-me à insaciável busca dos discos deste cão de caça e fui, um a um, aumentando a minha colecção e descobrindo o brilhantismo, a simplicidade e a honestidade de quem está na música pela música e não pelo estrelato ou pelo dinheiro que ela pode gerar. Hound Dog toca com a alma e é o que lhe sai da alma que se sente. Não ouçam discos… sintam-nos! Se não vos fizerem vibrar lá mesmo no fundo, não têm qualquer interesse.
Bom, mas ia dizendo que foi naquela noite que pela primeira ouvi Hound Dog Taylor. O programa de rádio ofereceria o disco, em vinil, bem entendido, ao ouvinte que escrevesse o melhor, na óptica do programa, texto sobre “blues” e sobre “Beware of the Dog”, o disco que se ouvia em fundo e rodou na integra.
Como já disse, na altura nem sequer possuía qualquer gira-discos, nem sabia quando o viria a poder comprar. Contudo, tal acabaria inevitavelmente por acontecer e decidi que iria escrever o melhor “paperback” sobre o tema em discussão e que, portanto, aquele disco seria meu, porque eu queria-o e muito! Manuscrevi (que máquina não havia e computadores só os do “Espaço 1999”) um texto, de que apenas recordo algo relacionado com a transposição do “blues” acústico do Mississipi, para a guitarra eléctrica de Hound Dog e dos seus Houserockers.
Passaram dias, provavelmente semanas e eu próprio quase havia esquecido o desafio a que prontamente houvera respondido.
Um dia a minha senhoria (quantas histórias tenho desta mulher) interpelou-me dizendo:
– Arlindo, está aqui uma encomenda para si! – E entregou-me um volume quadrado, pouco maior do que a capa de um disco de vinil.
Desembrulhei o pacote, sem receio de qualquer atentado bombista, e dele surgiu em tamanho real o disco de “Hound Dog Taylor & The Houserockers”, “Beware of the Dog”… Mirei-o bem, a capa e a contracapa, o alinhamento dos temas que havia ouvido na rádio, os músicos e o resto. Fiquei surpreendido: os “Houserockers” eram um baterista Ted Harvey e um outro guitarrista, Brewer Phillips. Três tipos eram suficientes para, sem quaisquer pretensões, mas também sem quaisquer complexos, ensinarem muitos dos autores e intérpretes contemporâneos de diversas áreas musicais que ali foram beber as suas influências.
Pronto era meu! Não sei já quando o ouvi pela primeira vez no meu próprio gira-discos. Também não interessa. O que de facto conta, é que nunca mais deixei de o ouvir e de tentar apreender tudo o que Hound Dog representou e continua a representar no mundo da música popular.
Hoje fica aqui no “Chords of Fame”, em jeito, não de homenagem, porque é desnecessária, mas como forma de lembrar um dos ícones do “blues” ou da “housemusic”, se quiserem. Sobre o que tocava, soía Hound Dog, dizer: “When I die, they’ll say, ‘He couldn’t play shit, but he sure made it sound good!'”
Para lá do tema habitual a que podem aceder clicando na capa acima (mas que só estará disponível a 1 de Agosto, por razões técnicas), fica um vídeo do Youtube, em que é visível a descontracção, a alegria e a simplicidade com que Hound Dog Taylor tocou até à data da sua morte, em 17 de Dezembro de 1975.

2 thoughts on “Cuidado com o cão!

  1. Olha, eu não sou uma fã deste tipo de música mas aprecio todos aqueles que são apaixonados pela arte (seja ela em que forma for) e que põem a alma naquilo que fazem, sem serem unicamente motivados pela fama e/ou ganho financeiro.
    Agradou-me, mais uma vez, ler a tua prosa que sempre me encanta mas confesso que já tenho saudades de ler-te em forma poética!
    Gostei, particularmente das reminiscências que aqui trazes sobre o passado porque sou uma sentimental.
    Beijos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.