APROXIMAR-NOS DO CAOS

 APROXIMAR-NOS DO CAOS No âmbito da EIFE Escola Informal de Fotografia do Espectáculo, edição 2019 e com a coordenação de Susana Paiva,  terá lugar na ACERT Tondela, uma exposição alimentada criativamente pelo pensamento do filósofo José Gil, expresso numa entrevista que o próprio concedeu ao Jornal de Noticias em janeiro de 2019.

Abaixo deixo-vos o texto a constar da “folha de sala” do evento, para o qual me atrevo a convidar-vos.

 APROXIMAR-NOS DO CAOS [com umas lentes que permitam ver melhor o que é isso].

“Caos. Do grego káos, do verbo khainen, abrir-se, entreabrir-se.

Termo utilizado aparentemente pela primeira vez na “Teogonia” de Hesíodo (séc. VIII a.c.), designando o vazio causado pela separação entre a Terra e o Céu a partir do momento de emergência do Cosmo. Designa também para os gregos o estado inicial da matéria indiferenciada, antes da imposição da ordem dos elementos.”

(JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008)

 […] Na sua série “3ª – retratos de uma viagem ao interior”, da qual fazem parte as imagens “Diana” e “Janela” que integram esta exposição, João Paulo Barrinha procura mais a forma como vê a realidade, do que a realidade em si. As suas imagens reflectem, deste modo, as suas miragens – representações, muitas vezes surreais, dos seus sonhos e das suas memórias. Se
uma imagem é [uma] memória, apenas poderá ser a do seu autor. […]

[…] Quando olhamos para o trabalho “Território e Caos” de Raúl Salas somos transportados para um imaginário abstracto. Nas suas imagens, o autor, explora a essência do caos através de impossibilidades, criando territórios e tempos fictícios que co-habitam numa espécie de contínuo espaço-tempo (wormhole), induzindo um conflito de ordem. São fragmentos de tempos passados e presentes, vestígios de sociedades humanas antigas que convergem na sua obra, numa espécie de narrativa onírica cuja desconstrução implica tempo, imersão e proximidade ou, bem pelo contrário, afastamento e abstracção – essa é escolha que caberá ao público. […]

[…] Ana João Romana (em colaboração e com referência à obra de Susana Anágua exposta em 2014 na Carpe Diem) e João Vasco, apesar dos seus distintos percursos e influências, convergem nesta exposição na utilização da cartografia para operacionalizarem discursos artísticos centrados em energia e matéria, luz e terra.

A luz da cidade de Lisboa funciona como sujeito explícito da obra “18º abaixo do horizonte” de Ana João Romana, onde a luz é abordada de uma forma latente, mas carece de luz presente para que se revele. […]

[…] Por seu lado, a prática artística de João Vasco é alicerçada na fotografia documental e numa certa antropologia visual, que o autor utiliza como veículo gerador de consciência social. Em “Unidade Convulsa”, que agora apresenta, o autor faz emergir o seu background académico como geógrafo e invoca a cartografia como testemunho, uma memória da sua própria experiência, do seu caminho no mapeamento do Caos, que muito para além de ser geofísico, é intrinsecamente interior. […]

[…] Entramos agora na obra “Self” de Elsa Figueiredo, no seu caos, pelo lado [mais] escuro à procura da claridade […] Talvez precisemos de silêncio para melhor Ver e Entrar neste caos, para encontrar o túnel que nos leva até à luz. Também aqui, como nos trabalhos de Ana João Romana e João Vasco, o silêncio será a lente que nos ajudará a entrar na pele da(o) outra(o) e melhor compreender o que expressa Elsa Figueiredo. […] parafraseando a autora, “é através da busca constante daquilo em que falhamos e daquilo que nos faz falta, do vazio por preencher, que caímos muitas vezes no Caos”. […]

[…] Na obra “Mais alto! Mais altos! Sem parar! [Louder! Taller! Non-Stop!]”, de Mário Azevedo, o desejo humano é entendido como um poder destruidor da Natureza – uma força que atenta contra o passado natural, o pré-existente -, uma contínua procura do novo que ameaça o que está sedimentado. […] Na obra apresentada nesta exposição, o autor adopta a estratégia de criar um diálogo conflituoso entre duas imagens, […] [ao qual acrescentou] uma dimensão auditiva, cuja criteriosa banda sonora a escutar em registo imersivo, ela própria oscilando entre caos e harmonia, cria uma nova ligação entre imagens, agudizando inevitavelmente o referido conflito.

[…]

[…] Equacionando o crescente interesse, na abordagem artística contemporânea, pela conflituosa dicotomia Público versus Privado, com tónica nos conceitos de Liberdade e Transgressão, abordamos as obras “Ceridween” de Ludmila Queirós e “Paisagem-Passagem” de Carlos Dias, elegendo a transgressão como peça nuclear do discurso que as une. […]

[…] Carlos Dias aborda o próprio acto criativo como transgressão, sem regras, algo bem patente no manifesto do movimento Lomográfico que o autor adopta como fundamento do trabalho que agora apresenta. No caso de Ludmila Queirós […], a transgressão é corporizada através do olhar do espectador, testemunha (in)voluntária dos seus registos/testemunhos que alimentam o jogo deliberado de diluição do espaço/acto público e privado. […]

[…] O que une as obras “The true face” de Ana Botelho e “Paintball field” de paula roush, aqui apresentadas, e que, nas suas múltiplas acepções, simultaneamente as separa, é a antítese da face humana, em alguns dos inúmeros significados que lhe são atribuídos: a máscara. A máscara, física ou psicológica, – esse outro eu – que permite ao seu utilizador, o mascarado, dissimular a sua identidade, transformando a sua aparência, através da sua evidente função de adaptação social. […]

[…] “Paintball field”, enquanto jogo de disfarces, ironiza o jogo da guerra e expõe, segundo a autora, “a glorificação da morte implícita na narrativa do jogo”. […] Todos desempenham um papel, numa outra pele e identidade: a de caçadores e de presa, como num conflito real.

Por seu lado, a narrativa construída por Ana Botelho em “The true face” utiliza a máscara para discursar sobre um Caos interior, na continuidade de uma reflexão pessoal que a autora havia iniciado, em “Há dias que gosto mais do que outros”, publicado em 2018, e que não versando uma guerra de todos os Homens, aborda um conflito intrinsecamente seu. […]

[…] Unidas pela fragmentação da imagem que propõem nas obras, Leonor Duarte e Sofia Pereira Santos encontram na ilusão o mecanismo perfeito para equacionar a natureza do seu olhar, e das suas próprias imagens, para através delas reflectir sobre as diferenças entre representação, ilusão e realismo.

[…] Se a obra “Pode uma suave brisa mudar o mundo?”, de Sofia Pereira Santos, opera a sua reflexão evocando o espaço – na verdade um duplo espaço, da maquete do seu fotolivro e do(s) lugar(es) que este representa, – para equacionar a sua necessidade pessoal de permanente procura, já “S/título” de Leonor Duarte, na sua dupla natureza pictórica e referencial, elege o tempo, […], como o eixo discursivo que lhe permite reflectir, metaforicamente, sobre a forma como “a natureza se apropria do construído, recriando-o de uma forma que invoca o sagrado.”

Apesar das suas diferenças, é também aqui, na dimensão da recriação, que se voltam a interceptar as obras destas duas autoras – no seu desejo de permanente reinvenção das possibilidades do olhar, usando como pretexto um corpo em perpétua demanda de viagem. Inevitavelmente imbuídos da “força devastadora do caos [que] varre e destrói os estratos habituais do pensamento, das afecções, da linguagem, provocando um vazio a partir do qual se constrói a singularidade”, mergulhamos uma última vez nas sábias palavras de José Gil em “Caos e ritmo”, conscientes que é “no plano das matérias de expressão, no plano das formas, estruturas, composições que germina o caos” e, sendo este, também, um discurso curatorial elaborado por artistas que reflectem sobre a obra e práctica de outros artistas, não resistimos a concluir com uma nova citação do referido livro, “[…] mas é também no espírito e no corpo do artista [que germina o caos], porque ele habita inteiramente o espaço e o tempo da obra, tal como estes invadem as suas sensações e o seu pensamento. Um plano – de matéria e energia – liga a obra ao artista e inversamente, o artista à obra. É nele que o caos se instala e se estende. […]”

Excertos do texto curatorial da autoria de Arlindo Pinto, Dora Pinto, Fátima Lopes, Fernando Alves, Paula Arinto e Susana Paiva

Ficha artística e técnica

APROXIMAR-NOS DO CAOS [com umas lentes que permitam ver melhor o que isso é]

COORDENAÇÃO

Susana Paiva

AUTORES
Ana Botelho
Carlos Dias
Elsa Figueiredo
João Vasco
Leonor Duarte
Mário Azevedo
Raul Salas
Sofia Pereira Santos
[Autores Convidados]
Ana João Romana
João Paulo Barrinha
Ludmila Queirós
paula roush

CURADORES
Ana Couto
Arlindo Pinto
Dora Pinto
Fátima Lopes
Fernando Alves
Paula Arinto
Rui Esteves [assistência]

PRODUÇÃO
Ana Moreira Silva | direcção

COMUNICAÇÃO
Filipa Assis | direcção
Clara Moura [assistência]

AGRADECIMENTOS

Gostaríamos de agradecer à ACERT a confiança artística em nós depositada e o extraordinário empenho que permitiu esta iniciativa.

Gostaríamos ainda de fazer um especial agradecimento ao filósofo José Gil cujo pensamento, em torno do Caos, alimentou criativamente este projecto.

Na Luz Encontro Abrigo

NA LUZ ENCONTRO ABRIGO

Subitamente Neves-Neves e uma porta para o absurdo da existência
Perdidos na alienação tecnológica da sua própria insuficiência
Crescem em aposentos para os esquecidos e amedrontados que são todos
Os todos de todo o mundo, pretos, brancos, amarelos e outras cores em RGB
Observo por entre aquela nesga aberta à pressa para inflamar os que procuram e
Caem exaustos nos arredores gelados das proximidades mortificantes de uma ATM
Vêm-me à cabeça imagens da urbe apinhada
O casario que arde suavemente, clamando pelo Capital anafado
Grito às chamas que me envolvem, deixo que o calor me dissolva as entranhas
E arreganho os dentes
Somos todos fruto de um enorme erro divino
– Deus é infinitamente pequeno – clama Jarry paradoxal
Seco de tudo, nada tenho e por aqui estaco o andar
Sou só lobo, sapiens solitário, permaneço de pé e procuro a luz
Queima, a luz, e é tão quente, tão enorme que a minha sombra se fixa eterna na parede
Na parede dos esquecidos e amedrontados
Um negativo, um oposto, um que brilha e brilha tanto que destrói corporativistas em CMYK
Tísicos desesperados, selvagens de boa saúde, perseguem o anafado e demoníaco Capital
Avanço a medo, que os lobos também o têm, abocanho aqui e ali, vadio
Permaneço alerta, vasculho por abrigo
Os olhos pedem tréguas
O corpo adormece e a viagem é longa
Estou cansado
Quando alcançarei paz?
Que aconteça qualquer coisa gigantesca e os olhos se revirem na busca
Anarquista sentimental foi assim que imaginaste que tudo teria lugar?
Como se o sonho fosse o teu melhor?
Esqueço que sim e arrasto-me mais uns miseráveis metros por entre corpos estendidos e
Janelas escancaradas que soltam uma música sem sentido
Caio no limiar e adormeço na babélica metrópole
Imagens do dia rodopiam num vórtice desvairado
Encontram-se na luz do meu sonho
Ali encontro abrigo

© 2018

Project i

Project i

Project i [PT]
Entre a “Sombra” de Tanizaki e a estética Wabi-Sabi existe nada: o nada para que devoluem ou evoluem todas as coisas, a base metafisica de um universo de beleza de coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. Uma beleza não convencional. A beleza das coisas modestas e humildes encontradas por entre as matizes da sombra e da penumbra.
No discreto e negligenciado encontramos a grandeza. E poderemos nós encontrar grandeza nas imagens de “i”? A retórica da estética ocidental pode, como tudo se pode, não lhe reconhecer a ideia de monumental e espetacular beleza. Pois não pode! Nem sequer deve! Porque não ostentam tais qualidades, nem pretendem ostentar. “i” são imagens de paciência, construidas pacientemente, para observadores pacientes. São sobre o menor e o oculto, a tentativa e o efémero: é preciso olhar. Ir devagar. Olhar de perto.
E quando olhamos, revela-se a diluição das fronteiras do referente, oscilando as imagens entre o abstrato e o figurativo, mostrando-se cruas, corroídas e contaminadas. A organização geométrica das formas, nítidas e precisas, foi deliberada e ostensivamente substituída por talhos suaves, ângulos e linhas vagos e pouco definidos. Não lhe subjaz a perfeição ou a preocupação do fino acabamento. Anulou-se a geométrica organização da forma e aceitou-se que se acomodassem elas próprias de forma orgânica. Ter-se-ão tornado naturalmente imperfeitas, por sua própria vontade. E que importa isso às imagens? Nada, absolutamente nada! Nada existe sem imperfeição.
Onde é existem estas imagens, imperfeitas, estranhas, vivendo no escuro, espreitando na penumbra. No papel ou no ecrã, na memória ou na pele, acabarão por se desvanecer e cair no esquecimento e não inexistência. Existem apenas numa ilusão da permanência. Não permanecerão. São impermanentes.
Estão ou não terminadas estas imagens e que nos querem dizer? Em que se tornarão e o que dirão depois? Como todas as coisas, incluindo o universo que conhecemos e o que não conhecemos, as imagens estão num infinito estado de se tornar algo ou de se dissolver. São um processo. Nunca estarão completas. Sobrevivem num estado de incompletude!
É isto que sabemos e isto que aceitamos: a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes, e incompletas. Quiçá uma beleza alicerçada na feiúra aparente das imagens.

Project i [EN]
In Tanizaki’s “In Praise of Shadows” and the Wabi-Sabi aesthetic lies the metaphysical basis of a universe of beauty, that of imperfect, impermanent and incomplete things; an unconventional beauty of discreet and neglected greatness. And can we find greatness in the images of “i”? Will the Western aesthetics rhetoric fail to recognize its ideal of monumental and spectacular beauty in “i”? It should, because “i” don’t have such qualities. “i” are patiently constructed images for patient observers. They are about simplicity and the hidden things, the attempt and the ephemeral: you need to see. Go slow. Look close. And when we look, the dilution of the referent borders reveals itself, proving the images to be raw, corroded and contaminated. The sharp and precise forms of geometric organization were replaced by smooth carving and vaguely defined lines. They don’t have the perfection of fine workmanship. The form geometrical organization was eliminated, and it was accepted that they would accommodate themselves in an organic way. They have become naturally imperfect by their own will.
These imperfect and strange images, living in the dark, lurking in the gloom, will eventually fade into oblivion and non-existence. They are an illusion of permanence. They are impermanent.
And are they finished? What will they become and what will they say later? Like all things, the images are in an infinite state of becoming something or in one of dissolving. They are a process. They will never be complete. They survive in a state of incompleteness!
This is what we know and what we accept: the beauty of imperfect, impermanent and incomplete things. A beauty based on the apparent ugliness of the images.

Project i as seen on PROPELLER magazine website.

© 2017

sonhando versos e sorrindo em itálico

sonhando versos e sorrindo em itálico

[PT]
O regresso regular às paisagens da infância é memória e contemplação. Percorrer distâncias apenas para alijar a carga das fórmulas da vivência citadina, vestida a preceito e organizada no caos da hipocrisia das narrativas infalivelmente corretas.
É uma transitória e triunfante liberdade de devaneio errático, imaginando e esquecendo as coisas que ficaram para trás e que deixei com desapego. Regresso para rever a cópia restaurada de um filme estreado há décadas, povoado de imagens que há muito se fixaram na memória.
Observando o tempo, sonho os versos em película e, nos breves instantes que a luz me concede, imortalizo o princípio daquela vida e permaneço indolente: “sonhando versos e sorrindo em itálico” como no poema de Álvaro de Campos.

 

[EN]
“dreaming verses and smiling in italics”
The systematic return to childhood landscapes is memory and contemplation. To go through distances just to shed the burden of the formulas of city living, properly dressed and organized in the chaos of its hypocritical and infallibly correct narratives.
It’s a triumphant and transitory liberty of erratic wandering, imagining and forgetting things left behind, that I detachedly abandoned.
I come back to rewatch a restored copy of a film that premiered decades ago, populated with images that are long rooted in the memory.
Observing time, I dream the verses on film and, within the brief moments that light concedes me, I immortalize the principle of that living, and I keep indolent: “dreaming verses and smiling in italics”, as in the poem by Álvaro de Campos.

©2017

 

Everything Is Not

Everything Is Not

O modelo de (re)construção das cidades do pós-guerra, foi determinante no desaparecimento da rua como espaço social e reclusão dos indivíduos. E “reclusos no isolamento habitacional e social de um bairro dormitório, podemos sentir-nos em contacto com o mundo através da Internet e da televisão, as verdadeiras paisagens do nosso imaginário quotidiano”1.
A condição existencial pós-moderna carateriza-se pelo primado do homo consumens. O consumo, por seu lado, é identificado com poder e felicidade e sustenta o domínio da mercadoria como elemento de controlo social, num mundo sustentado nas aparências e na voracidade permanente de factos, notícias e produtos.
O mundo contemporâneo, individualista e globalizado, impõe a imagem e a representação no lugar do realismo concreto e natural, a aparência no lugar do ser, coloca a ilusão no lugar da realidade e substitui a atividade de pensar e reagir com dinamismo pela imobilidade. “Pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa os indivíduos em sociedade abdicam da dura realidade dos acontecimentos da vida. O consumo e a imagem ocupam o lugar, que antes era do diálogo pessoal, através da TV e os outros meios de comunicação de massa, publicidades de automóveis, marcas, etc., e produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos”2.
EVERYTHING IS NOT é uma reflexão crítica sobre um mundo que busca a glória nas imagens que fabrica. Um mundo mediado, deturpado, irreal, impossível de ver. Na verdade, a sociedade transformou-se em algo onde a contínua reprodução da cultura é feita pela proliferação de imagens e mensagens dos mais variados tipos. A consequência disso, é uma vida contemporânea invadida por imagens, fornecendo um novo tipo de experiência humana onde é difícil separar a ficção da realidade. São os media, sobretudo a televisão, que definem a importância das coisas e as agendas políticas, sociais e culturais. A sociedade contemporânea é a negação da própria humanidade, que busca felicidade numa aparente liberdade de escolha. Não há liberdade num imaginário já preenchido por uma satisfação antecipada a partir de um real fabricado.
Esta realidade mediada, aliada à passividade dos Homens, não pode senão conduzir a vivências de reclusão, contemplativas, fundadas em imagens, a vidas que não são mais do que uma aparência da aparência. A apatia que dissimuladamente se instala, abre portas ao conforto da superficialidade, tomando-se como verdadeiro o falso das imagens, elas próprias interpretações espetaculares do mundo.

1. Lippolis, Leonardo (2016). “Viagem aos Confins da Cidade“. 1ª ed. Lisboa: Antígona.
2. Bahia, José Aloise. (2005). “A sociedade do espetáculo.“Observatorio da Imprensa, 5 de janeiro. Página consultada a 7 de abril de 2016.

© 2016

 

Ausências

Ausências

Ausências (Absences) nos espaços que facilitam a circulação, o consumo e a comunicação, mas que, ao contrário dos “lugares antropológicos”, que privilegiam as dimensões identitárias, históricas e relacionais, são apenas elementos de ligação. São destinados à passagem, não são ambientes de habitação e não requerem que se esteja sempre em contato com eles a ponto de serem criadas relações duradouras.
São “não-lugares”.
Os “não-lugares” emergem num contexto societário caraterizado pela impessoalidade onde todos são tratados com indiferença. Onde o estar “só entre a multidão” adquire o seu pleno significado. Todos são iguais (porque lhes é negada a diferença) e todos são indiferentes aos outros. Os “não-lugares” impõem ao individuo novas formas de solidão. Os espaços são semelhantes e despersonalizados.
Ausências discorre sobre o Homem na sua condição de animal social, ser de afetos, e os relacionamentos que opera com a comunidade em que se insere e com os espaços que ocupa. É uma metáfora que dá expressão à omissão da criação de laços identitários e relacionais entre os humanos e entre estes e o território em que se movimentam, indiferenciados e despersonalizados.
Imagens (aparentemente) vazias que consubstanciam também um discurso sobre as possibilidades da fotografia. Uma fotografia de aparências, que discursa sobre a verdade através da mentira ficcionada das imagens.

© 2015

Space 3

Space 3

“Space 3” é um território de imaginação geográfica e fotográfica. Recorre em certa medida ao conceito de heterotopias usado por David Harvey ao referir-se aos espaços heterotópicos. É no fundo um “trompe-l’oeil” que nos obriga a refletir nas possibilidades dos espaços. Um terceiro espaço com origem numa espécie de engarrafamento do tempo que decorreu entre tomadas de vista dos espaços que, apesar de geograficamente localizáveis, nunca são os mesmos porque também os eventos que ali têm em lugar, os significados que se lhe atribuem, as ideias e ideais que lhe subjazem não são os mesmos.
Interessa-me, ao debruçar-me sobre a questão do território, a construção de – parafraseando Foucault – “espaços outros”, através de uma espécie de arqueologia da imagem. O passado dos espaços sempre me interessou, nomeadamente e neste caso, para me ajudar a criar outros espaços cuja existência se resume à superfície bidimensional do papel fotográfico.

© 2015

No Rewind & No Replay

No Rewind & No Replay

“Viver é morrer um pouco todos os dias.

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Texto de Bernardo Soares

Fotografias © 2012

Fios de Vida

Fios de Vida

“Fios de Vida” reflete sobre a fluidez da vida e da fragilidade do homo citadinus débil demais para viver sozinho, perdido na cidade, criação sua, própria do ser social, um lugar de agitação, barulho e marcado pela superficialidade da vida. A cidade é um local paradoxal. No espaço urbano, espera-se que os indivíduos ajam coletivamente, impulsionados pela proximidade com os seus semelhantes, mas é exatamente o inverso que ocorre: o homem está só no meio da multidão. “Fios de Vida” reflete sobre o relacionamento humano num ambiente competitivo e marcado pela solidão e pela postura individualista que as pessoas assumem no espaço das grandes cidades. A cidade abriga um (citando R. WILLIAMS, O campo e a cidade, 1990) “imenso aglomerado de pequenos sistemas, cada um dos quais, por sua vez, é uma pequena anarquia”. Também Hardy escreve, em 1887, que “cada indivíduo tem consciência de si próprio, mas ninguém é consciente da coletividade como um todo.” As imagens isolam indivíduos, grupos, pertenças de um meio atomizado, sem relacionamento aparente ou real. Os indivíduos e os grupos, mais ou menos pequenos, são profundamente descontextualizados como reforço a sua inconsciência coletiva, fios de uma malha que, sendo de vida, é insuficiente para tecer uma consciência coletiva.

© 2006