Território e Identidade

Território e Identidade

Decorre até 29 de junho a exposição “Aproximar-nos do Caos” na ACERT Tondela. Disso mesmo vos dei conta em publicação anterior, aqui no blogue. E espera por vós e por todos aqueles a quem possais dar nota da mesma. No centro da discussão estão questão ligadas ao território e à identidade, individual e social.

Aproximar-nos do caos | Exposição fotografia é fruto de um trabalho coletivo coordenado pela fotógrafa Susana Paiva, com a cumplicidade da EIFE Escola Informal de Fotografia do Espectáculo e da ACERT Tondela que acolhe a exposição e desenvolve um trabalho pluridisciplinar notável, em termos das áreas artísticas.

No âmbito da exposição tive o privilégio e a enorme responsabilidade de fazer a curadoria dos trabalhos dos autores Ana Botelho, Ana João Romana, João Vasco, e Paula Roush.

Pessoalmente a curadoria representou uma oportunidade de pesquisa e reflexão sobre a obra global dos autores, sobre estas suas obras em particular e a possibilidade, de consistentemente, abordar questões que me interessam do ponto de vista da prática fotográfica atual: se a mesma faz sentido, que sentido é esse e se a minha própria prática é coerente com tudo isso.

Por tudo isso, esta prática curatorial, ainda que incipiente, constituiu para mim uma oportunidade de crescimento enquanto autor e deixou-me na boca o sabor a um doce desejo de mais.

Para os interessados fica aqui a ligação para descarga do catálogo da exposição; uma publicação virtual de 30 páginas, resultado de um enorme desafio e da vontade, criatividade, paixão e resiliência de todos quantos participam nesta disrupção. Emprego o verbo no presente não só porque a exposição está patente até 29 de junho, num espaço fabuloso, como acredito irá estar em tempos próximos noutros locais do país, onde as artes visuais também têm lugar.

Pode ser perto de si.
Aceitem um abraço.

APROXIMAR-NOS DO CAOS

 APROXIMAR-NOS DO CAOS No âmbito da EIFE Escola Informal de Fotografia do Espectáculo, edição 2019 e com a coordenação de Susana Paiva,  terá lugar na ACERT Tondela, uma exposição alimentada criativamente pelo pensamento do filósofo José Gil, expresso numa entrevista que o próprio concedeu ao Jornal de Noticias em janeiro de 2019.

Abaixo deixo-vos o texto a constar da “folha de sala” do evento, para o qual me atrevo a convidar-vos.

 APROXIMAR-NOS DO CAOS [com umas lentes que permitam ver melhor o que é isso].

“Caos. Do grego káos, do verbo khainen, abrir-se, entreabrir-se.

Termo utilizado aparentemente pela primeira vez na “Teogonia” de Hesíodo (séc. VIII a.c.), designando o vazio causado pela separação entre a Terra e o Céu a partir do momento de emergência do Cosmo. Designa também para os gregos o estado inicial da matéria indiferenciada, antes da imposição da ordem dos elementos.”

(JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008)

 […] Na sua série “3ª – retratos de uma viagem ao interior”, da qual fazem parte as imagens “Diana” e “Janela” que integram esta exposição, João Paulo Barrinha procura mais a forma como vê a realidade, do que a realidade em si. As suas imagens reflectem, deste modo, as suas miragens – representações, muitas vezes surreais, dos seus sonhos e das suas memórias. Se
uma imagem é [uma] memória, apenas poderá ser a do seu autor. […]

[…] Quando olhamos para o trabalho “Território e Caos” de Raúl Salas somos transportados para um imaginário abstracto. Nas suas imagens, o autor, explora a essência do caos através de impossibilidades, criando territórios e tempos fictícios que co-habitam numa espécie de contínuo espaço-tempo (wormhole), induzindo um conflito de ordem. São fragmentos de tempos passados e presentes, vestígios de sociedades humanas antigas que convergem na sua obra, numa espécie de narrativa onírica cuja desconstrução implica tempo, imersão e proximidade ou, bem pelo contrário, afastamento e abstracção – essa é escolha que caberá ao público. […]

[…] Ana João Romana (em colaboração e com referência à obra de Susana Anágua exposta em 2014 na Carpe Diem) e João Vasco, apesar dos seus distintos percursos e influências, convergem nesta exposição na utilização da cartografia para operacionalizarem discursos artísticos centrados em energia e matéria, luz e terra.

A luz da cidade de Lisboa funciona como sujeito explícito da obra “18º abaixo do horizonte” de Ana João Romana, onde a luz é abordada de uma forma latente, mas carece de luz presente para que se revele. […]

[…] Por seu lado, a prática artística de João Vasco é alicerçada na fotografia documental e numa certa antropologia visual, que o autor utiliza como veículo gerador de consciência social. Em “Unidade Convulsa”, que agora apresenta, o autor faz emergir o seu background académico como geógrafo e invoca a cartografia como testemunho, uma memória da sua própria experiência, do seu caminho no mapeamento do Caos, que muito para além de ser geofísico, é intrinsecamente interior. […]

[…] Entramos agora na obra “Self” de Elsa Figueiredo, no seu caos, pelo lado [mais] escuro à procura da claridade […] Talvez precisemos de silêncio para melhor Ver e Entrar neste caos, para encontrar o túnel que nos leva até à luz. Também aqui, como nos trabalhos de Ana João Romana e João Vasco, o silêncio será a lente que nos ajudará a entrar na pele da(o) outra(o) e melhor compreender o que expressa Elsa Figueiredo. […] parafraseando a autora, “é através da busca constante daquilo em que falhamos e daquilo que nos faz falta, do vazio por preencher, que caímos muitas vezes no Caos”. […]

[…] Na obra “Mais alto! Mais altos! Sem parar! [Louder! Taller! Non-Stop!]”, de Mário Azevedo, o desejo humano é entendido como um poder destruidor da Natureza – uma força que atenta contra o passado natural, o pré-existente -, uma contínua procura do novo que ameaça o que está sedimentado. […] Na obra apresentada nesta exposição, o autor adopta a estratégia de criar um diálogo conflituoso entre duas imagens, […] [ao qual acrescentou] uma dimensão auditiva, cuja criteriosa banda sonora a escutar em registo imersivo, ela própria oscilando entre caos e harmonia, cria uma nova ligação entre imagens, agudizando inevitavelmente o referido conflito.

[…]

[…] Equacionando o crescente interesse, na abordagem artística contemporânea, pela conflituosa dicotomia Público versus Privado, com tónica nos conceitos de Liberdade e Transgressão, abordamos as obras “Ceridween” de Ludmila Queirós e “Paisagem-Passagem” de Carlos Dias, elegendo a transgressão como peça nuclear do discurso que as une. […]

[…] Carlos Dias aborda o próprio acto criativo como transgressão, sem regras, algo bem patente no manifesto do movimento Lomográfico que o autor adopta como fundamento do trabalho que agora apresenta. No caso de Ludmila Queirós […], a transgressão é corporizada através do olhar do espectador, testemunha (in)voluntária dos seus registos/testemunhos que alimentam o jogo deliberado de diluição do espaço/acto público e privado. […]

[…] O que une as obras “The true face” de Ana Botelho e “Paintball field” de paula roush, aqui apresentadas, e que, nas suas múltiplas acepções, simultaneamente as separa, é a antítese da face humana, em alguns dos inúmeros significados que lhe são atribuídos: a máscara. A máscara, física ou psicológica, – esse outro eu – que permite ao seu utilizador, o mascarado, dissimular a sua identidade, transformando a sua aparência, através da sua evidente função de adaptação social. […]

[…] “Paintball field”, enquanto jogo de disfarces, ironiza o jogo da guerra e expõe, segundo a autora, “a glorificação da morte implícita na narrativa do jogo”. […] Todos desempenham um papel, numa outra pele e identidade: a de caçadores e de presa, como num conflito real.

Por seu lado, a narrativa construída por Ana Botelho em “The true face” utiliza a máscara para discursar sobre um Caos interior, na continuidade de uma reflexão pessoal que a autora havia iniciado, em “Há dias que gosto mais do que outros”, publicado em 2018, e que não versando uma guerra de todos os Homens, aborda um conflito intrinsecamente seu. […]

[…] Unidas pela fragmentação da imagem que propõem nas obras, Leonor Duarte e Sofia Pereira Santos encontram na ilusão o mecanismo perfeito para equacionar a natureza do seu olhar, e das suas próprias imagens, para através delas reflectir sobre as diferenças entre representação, ilusão e realismo.

[…] Se a obra “Pode uma suave brisa mudar o mundo?”, de Sofia Pereira Santos, opera a sua reflexão evocando o espaço – na verdade um duplo espaço, da maquete do seu fotolivro e do(s) lugar(es) que este representa, – para equacionar a sua necessidade pessoal de permanente procura, já “S/título” de Leonor Duarte, na sua dupla natureza pictórica e referencial, elege o tempo, […], como o eixo discursivo que lhe permite reflectir, metaforicamente, sobre a forma como “a natureza se apropria do construído, recriando-o de uma forma que invoca o sagrado.”

Apesar das suas diferenças, é também aqui, na dimensão da recriação, que se voltam a interceptar as obras destas duas autoras – no seu desejo de permanente reinvenção das possibilidades do olhar, usando como pretexto um corpo em perpétua demanda de viagem. Inevitavelmente imbuídos da “força devastadora do caos [que] varre e destrói os estratos habituais do pensamento, das afecções, da linguagem, provocando um vazio a partir do qual se constrói a singularidade”, mergulhamos uma última vez nas sábias palavras de José Gil em “Caos e ritmo”, conscientes que é “no plano das matérias de expressão, no plano das formas, estruturas, composições que germina o caos” e, sendo este, também, um discurso curatorial elaborado por artistas que reflectem sobre a obra e práctica de outros artistas, não resistimos a concluir com uma nova citação do referido livro, “[…] mas é também no espírito e no corpo do artista [que germina o caos], porque ele habita inteiramente o espaço e o tempo da obra, tal como estes invadem as suas sensações e o seu pensamento. Um plano – de matéria e energia – liga a obra ao artista e inversamente, o artista à obra. É nele que o caos se instala e se estende. […]”

Excertos do texto curatorial da autoria de Arlindo Pinto, Dora Pinto, Fátima Lopes, Fernando Alves, Paula Arinto e Susana Paiva

Ficha artística e técnica

APROXIMAR-NOS DO CAOS [com umas lentes que permitam ver melhor o que isso é]

COORDENAÇÃO

Susana Paiva

AUTORES
Ana Botelho
Carlos Dias
Elsa Figueiredo
João Vasco
Leonor Duarte
Mário Azevedo
Raul Salas
Sofia Pereira Santos
[Autores Convidados]
Ana João Romana
João Paulo Barrinha
Ludmila Queirós
paula roush

CURADORES
Ana Couto
Arlindo Pinto
Dora Pinto
Fátima Lopes
Fernando Alves
Paula Arinto
Rui Esteves [assistência]

PRODUÇÃO
Ana Moreira Silva | direcção

COMUNICAÇÃO
Filipa Assis | direcção
Clara Moura [assistência]

AGRADECIMENTOS

Gostaríamos de agradecer à ACERT a confiança artística em nós depositada e o extraordinário empenho que permitiu esta iniciativa.

Gostaríamos ainda de fazer um especial agradecimento ao filósofo José Gil cujo pensamento, em torno do Caos, alimentou criativamente este projecto.

Livro de Artista do Projeto “i”

Livro de Artista do Projeto “i”

Livro de Artista do Projeto i

A apresentação do livro relativo ao Projeto “i”  terá lugar no dia 17 de novembro, pelas 18h.30m no Palácio Pancas Palha, Travessa do Recolhimento Lázaro Leitão, nº 1, 1ª andar, Lisboa. São naturalmente bem vindos e a vossa presença é apreciada. A laia de contextualização fica abaixo um pouco da história da construção deste livro “sui generis”.

*

O projeto “i” nasceu no âmbito da Escola Informal de Fotografia em 2017, sob a orientação de Susana Paiva, tendo como pano de fundo o “Elogio da Sombra” de Junichiro Tanizaki e o universo japonês Wabi-Sabi, tal como sobre ele escreveu Leonard Koren em “Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers”.
O “Elogio da Sombra” serviu de base ao “draft” conceitual do projeto e à safra de imagens que foram colhidas em fevereiro, março, abril e novembro de 2017. Além da penumbra tão cara a Tanizaki, o grosso das imagens revelava contrastes muito acentuados e sombras muito profundas, em locais onde apenas uma luz muito ténue era admitida, sem luz solar direta ou luz qualquer luz artificial. As imagens eram nítidas e precisas, de arestas cortantes, ângulos e linhas bem definidos. Apesar de evocarem a importância, segundo Tanizaki, da obscuridade no modo de vida tradicional japonês, em si mesmas consideradas, não satisfaziam, segundo o seu autor, os conceitos de transitoriedade, imperfeição, impermanência e incompletude, a que a beleza das coisas está submetida, segundo o conceito de Wabi-Sabi de Koren. Isso iria requerer um processo criativo assente a montante num erro/acaso, que descaradamente se usou como formula de experimentação para a criação final das imagens, todas elas únicas e perspetiveis. Citando Lazslo Moholy-Nagy, 1947, por seu lado citado por Magda Fernandes & José Domingos in “A salvação da fotografia vem da experimentação”. Não temos a pretensão da salvar a fotografia, nem nos preocupa, como se questionam aqueles autores, se “Poderá o acaso continuar a assim chamar-se, se deliberadamente o procuramos?”
As imagens de “i”, como se lê no Artist Statement do autor, “são imagens de paciência, construídas pacientemente, para observadores pacientes”. Que outra coisa dizer de imagens cuja construção obedece a um processo de impressão doméstica a preto e branco, no verso de papel fotográfico, terminadas usando um secador de cabelo?
O livro que agora se dá a conhecer continua a obedecer aos princípios estéticos que no início e ao longo do processo da sua construção apelavam ao acaso e à imperfeição. Para isso muito contribuiu o workshop com Paula Roush, “Page Turner”, em novembro de 2017. O livro, fugindo do convencional, não o afronta tão radicalmente como estamos certos a Paula apreciaria, mas comunga ele próprio de três simples realidades: nada dura, nada é completo: nada é perfeito.
“i” foi totalmente manufaturado. À exceção da impressão, ela própria exigindo uma atenção redobrada em relação a um processo normal de impressão, tudo o resto é fruto de braço. É portador de uma beleza onde já não se torna suficiente só olhar, é preciso ter tempo para ver. A beleza e a pressa são antagónicos e esta impede que se desfrute daquela, porque há uma importante auto-jornada para encontrar e apreciar o que está mais escondido.
“i” é um exercício de paciência, generosidade e simplicidade.
Esperamos que o desfrutem como ele merece.

Zemrude zine

Zemrude zinezemrude zine-collectors-edition

Title: Zemrude
Author: Arlindo Pinto
Editor: Self-Publishing
Dimensions: 13 x 18 cm
Pages: 24
Edition: 20 copies (regular) + 5 copies (collector’s edition)
Edition Year: 2015

It is the mood of the beholder which gives the city of Zemrude its form. If you go by whistling, your nose a-tilt behind the whistle, you will know it from below: window sills, flapping curtains, fountains. If you walk along hanging your head, your nails dug into the palms of your hands, your gaze will be held on the ground, in the gutters, the manhole covers, the fish scales, wastepaper. You cannot say that one aspect of the city is truer than the other, but you hear of the upper Zemrude chiefly from those who remember it, as they sink into the lower Zemrude, following everyday the same stretches of street and finding again each morning the ill-humor of the day before, encrusted at the foot of the walls. For everyone, sooner or later, the day comes when we bring our gaze down along the drainpipes and we can no longer detach it from the cobblestones. The reverse is not impossible, but it is more rare: and so we continue walking, through Zemrude’s streets with eyes now digging into the cellars, the foundations, the wells.

(CALVINO, 1972:68)

Today Is A Long Time

Today Is A Long Time

Today Is A Long Time cartaz Today Is A Long Time é um projeto editorial da editora “The Unknown Books” e é o meu mais recente livro fotográfico.
Sem vos querer maçar fica uma pequena sinopse abaixo.
Fica o convite para se juntarem à celebração.
Lá vos espero, dia 18, às 18.30.

*

«O Tempo não é apenas um caminho mais ou menos célere para o ocaso. É testemunha que há de ser chamada a depor sobre a teia de existências a cujo nascimento e constância assistiu indiferente. Alguém irá questioná-lo: se estava efetivamente lá, se tudo se passou assim, se aqueles entes se amavam efetivamente e se o seu dia a dia era de ternuras indizíveis. E se o sol brilhava mais quando a criança olhava o horizonte, tentando adivinhar o futuro, maravilhado com o que via.
O Tempo há de ser perguntado porque guardou para sempre na invisibilidade dos seus aposentos a memória de tudo o que existiu e há de responder com um leve sorriso:
– Por dever. Pela obrigação de ser Tempo. Para recordar ao outrora infante, que aqueles entes e aquele lugar continuam com ele até que ele próprio se torne memória e dele serão para lá desse epílogo. Para o recordar que lhes deve a sua generosidade e o seu afeto.
E o Tempo diz-se eterno, longo, severo e, no entanto, contraditoriamente curto.
“Today Is A Long Time” é “…um poético relato de imortalidade e humanidade… Um secreto murmúrio partilhado, sobre as múltiplas formas como a morte nos toca e esculpe.” *
Um divida saldada, um obrigado sentido. Um revisitar do lugar das memórias que ajudaram a construir o infante e a encontrar na ruína física aquilo que permanece, o que o Tempo, muito tempo, construiu.
As imagens são apenas lembrança, o que escondem é o que existe.»

*do texto introdutório de Susana Paiva

O ano termina aqui

O ano termina aqui

Caros amigos:
Quase a terminar o ano de 2016 quero dar nota do meu apreço por todos aqueles que de uma forma de ou de outra apoiam o meu trabalho enquanto fotógrafo: seja criticando de forma construtiva, seja ajudando na realização de eventos, divulgando e adquirindo algumas das coisas que vou fazendo enquanto fotógrafo. Estas aquisições são uma importante contribuição para continuar a desenvolver trabalho, porque ajudam a amortizar os investimentos que vou fazendo. Não há lucro. Há vontade, paixão e muito trabalho.
O ano termina aquiEm 2016 editei duas novas zines “EVERYTHING IS NOT” e O ano termina aqui alegoria do inferno zineAlegoria do Inferno”. Considerem oferecer alguma pelo Natal ou até na Páscoa… Algumas das minhas zines estão quase esgotadas e a a 7ª Feira do Livro de Fotografia de Lisboa – Lisbon’s Photobook Fair deste ano ajudou nesse capitulo.
A zine da série Space 3 está quase esgotada. Fotografias desta série receberam uma Menção Honrosa no Concurso de Fotografia do Barreiro 2017. Não sendo um primeiro prémio, é mais um indicio que nos diz que, possivelmente, estamos no caminho da luz! A exposição com os 10 melhores trabalhos a concurso está por lá! A zine da série AUSÊNCIAS está quase esgotada também
A propósito, estive no Barreiro no dia 27 de novembro numa conversa muito interessante sobre o ensino da fotografia em Portugal, como moderador, por ausência da Susana Paiva (uma mentora e referência para mim). Estiveram representados na conversa o IADE, a APAF, a AR.CO, o IPT, o MEF e o CENJOR.
Tenho grandes expectativas para 2017. Mas isso fica, por ora, no segredo do deuses.
Sejam felizes.
O ano termina aqui.

As Cidades o Homem

As Cidades o Homem

Chegados quase ao fim do mês de Maria venho aqui dar-vos nota de que o meu próximo trabalho fotográfico, tendo como pano de fundo AS CIDADES O HOMEM, tem especial enfoque nas problemáticas da condição existencial pós-moderna, caraterizada pelo primado do consumo e do homo consumens, produto do capitalismo tardio ou neocapitalismo. Consumo que se identifica com o poder e a felicidade, e sustenta a autoridade da mercadoria como elemento de dominação da sociedade, num mundo movido pelas aparências e pela voracidade permanente de factos, notícias e produtos.
O projeto é, como sempre, uma reflexão sobre questões que me preocupam e sobre as quais pretendo comunicar alguma coisa, tomar posição.
É um trabalho de apropriação, sobre cujas imagens estão neste momento em edição. Provisoriamente tem por titulo EVERYTHING IS NOT. Uma das imagens da série fica aqui como antecipação.
As Cidades o Homem O projeto será apresentado sob a forma de “work in progress” apenas a convidados (darei noticia antes) no próximo mês de junho, uma vez que a sua apresentação formal apenas terá lugar no dia 30 de Outubro, entre as 16h30 e as 19h30, nas instalações do Palácio Pancas Palha, em Lisboa.

Entretanto, os projetos de 2015 que foram editados em fotozine, ZEMRUDE, SPACE3 e AUSÊNCIAS, depois de esgotado o stock inicial, estão de volta com a possibilidade de fazerem o download gratuito de uma fotografia de cada uma das séries. No caso de estarem interessados em alguma das zines/fotos cliquem AQUI, sff. A aquisição das zines ajuda-me a financiar novos projetos. Fica aqui um profundo agradecimento a todos os que têm adquirido exemplares das ditas.
Saudações fotográficas.

Processos Fotográficos Alternativos

Processos Fotográficos Alternativos

Novembro é o Mês da Fotografia, na cidade do Barreiro.  Entre as atividades que o evento envolve, estão exposições, palestras, oficinas, mostras, concurso de fotografia, maratona fotográfica, etc.
No próximo dia 29, domingo, pelas 15.30 terá lugar uma masterclass sobre processos fotográficos alternativos. Esta masterclass terá a participação da Magda Fernandes e José Domingos, com o projeto de fotografia estoneipa, TOSCA (Uma câmara estenopeica ou câmara pinhole é uma máquina fotográfica sem lente), de mim próprio com o projeto “Take My Body” e do João Miguel Batista com o projeto Polaroid “De olhos bem fechados (uma palavra)” (Polaroid (marca registrada da Polaroid Corporation) é o nome de um tipo de plástico que serve para polarizar a luz, patenteado originalmente em 1929).
Estarei por lá, convido-vos a consultar o programa do evento aqui, e se vos aprouver a assistirem à masterclass. O vosso apoio é fundamental para os autores.
Irei falar do projeto “Take My Body” e das ferramentas utilizadas na sua construção: um digitalizador (periférico de entrada responsável por digitalizar imagens, fotos e textos impressos para o computador, um processo inverso ao da impressora).
Na mesma masterclass reunir-se-ão processos com história feita e assente e outros que a era digital veio abrir portas: desde a película fotográfica e do estenopo ao conhecido “scanner”, passando pelo plástico que serve para polarizar a luz, disto se falará e das possibilidades que estes processos fotográficos alternativos oferecem aos autores que os colocam ao serviço da sua criatividade.
Até lá!

Masterclass Processos Fotográficos Alternativos

Território e Imaginação

Território e Imaginação

Desde julho que não vos dava notícias sobre a fotografia que vou fazendo. Por isso aqui estou.

2015 foi para mim, que não faço fotografia a tempo inteiro, o ano do espaço, do território e dos lugares e não-lugares. Melhor, território e imaginação. A matéria foi uma das vertentes de estudo do curso deste ano da Escola Informal de Fotografia-EIF. Suspeito que 2016 não será substancialmente diferente.

Quando falamos de espaço e/ou território pode, cada uma de nós, estar a referir-se a realidades bem distintas. Não vos quero apoquentar com assuntos que porventura não vos interessem (mas são livres de passar à frente), mas tenho que dizer-vos que quando se parte para um trabalho fotográfico de autor há que suportá-lo num conceito, uma forma de ver e dar a ver, entre outras coisas. A construção do conceito, partindo da ideia inicial, determina a pesquisa e estudo a realizar antes da execução do trabalho.

Numa fase embrionária fui compilando textos, cuja leitura depois fui aprofundando em função dos meus interesses na preparação do(s) discurso(s) fotográfico(s) a que me propus.

Estes foram alguns pontos de partida para o Território e Imaginação:

  • “O espaço é a acumulação desigual dos tempos.” MILTON SANTOS, 1988.
  • “O território é o chão e mais a população, isto é uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre as quais ele influí. Quando se fala em território deve-se, pois, desde logo, entender que está falando em território usado, utilizado por uma população.” MILTON SANTOS, 2003.
  • “De acordo com RAFFESTIN (1993), o território é uma construção conceitual a partir da noção de espaço. Com isso esse autor pretende fazer uma distinção entre algo já “dado”, o espaço – na condição de matéria prima natural e um produto resultante da moldagem pela ação social dessa base – e o território – um construto, passível de “uma formalização e/ou quantificação”. Assim, “a produção de um espaço, o terrritório nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes, circuitos e fluxos que aí se instalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários, auto-estradas, e rotas aéreas, etc.”, (LEFEBVRE, 1978, p. 259 apud RAFFESTIN, 1993, p. 143), por exemplo, se constitui em um complexo jurídico-sócio-econômico, modelado em uma multiplicidade de paisagens, exibindo feições características. O território é, assim, a base física de sustentação locacional e ecológica, juridicamente institucionalizado do Estado Nacional. Contém os objetos espaciais, naturais e/ou construídos, na condição de instrumentos exossomáticos, para (re)produção de uma identidade étnico-sócio-cultural.” CARLOS SANTOS in REVISTA ZONA DE IMPACTO. ISSN 1982-9108, VOL. 13, Setembro/Dezembro, ANO 11, 2009.
  • “…do território não escapa nada, todas as pessoas estão nele, todas as empresas, não importa o tamanho, estão nele, todas as instituições também, então o território é um lugar privilegiado para interpretar o país.” MILTON SANTOS, 1998.
  • “Para Soja (1971, p. 19), no âmbito da conotação política da organização do espaço pelo homem, a territorialidade pode ser vista como “um fenômeno comportamental associado com a organização do espaço em esferas de influência ou de territórios claramente demarcados, considerados distintos e exclusivos, ao menos parcialmente, por seus ocupantes ou por agentes outros que assim os definam.” CARLOS SANTOS in REVISTA ZONA DE IMPACTO. ISSN 1982-9108, VOL. 13, Setembro/Dezembro, ANO 11, 2009.
  • “Os não-lugares representam de certo modo as transformações que estão a ocorrer na sociedade moderna e que se materializam no território e das quais ninguém se parece aperceber. Todos nós, ou muitos de nós, beneficiamos com a construção destes novos espaços que nos permitem “fazer mais coisas em menos tempo”: auto-estradas, hipermercados, centros comerciais, caixas multibanco, etc. É a estes espaços, que nos facilitam a circulação, o consumo e a comunicação que Marc Augé chama “não-lugares”, em oposição aos “lugares antropológicos” que privilegiam as dimensões identitárias, históricas e relacionais (Augé, 2006). 
  • O não-lugar surge numa sociedade globalizada e é de certo modo o resultado da mobilidade dos indivíduos, dos objectos, e das ideias. Mas esta, tem características diferentes da mobilidade da cidade industrial, trata-se cada vez mais de uma dupla mobilidade: a do desenvolvimento tecnológico que permitiu “encurtar as distâncias” através dos meios de transporte (avião, metropolitano, automóvel); e a que surge com as Novas Tecnologias da Informação (NTI), que tornando-nos possível percorrer o espaço através de alguns sentidos (olhar, ouvir), nos permitem viver cada vez mais num espaço virtual sem sairmos do lugar que ocupamos.
    O lugar antropológico é o oposto dos não-lugares que encarnam de certo modo a ideia de cidade associada à mobilidade, viagem e anonimato.
    “Correspondem a uma relação forte entre o espaço e o social, que caracteriza as sociedades arcaicas, e são portadores de três dimensões: são identitários, históricos e relacionais. Estes lugares acompanham a modernidade, mas com as recentes transformações da sociedade eles vão-se perdendo, desaparecendo, e sendo substituídos por outros a que MA (Marc Augé) vai chamar não-lugares.” TERESA SÁ, EM LUGARES E NÃO-LUGARES EM MARC AUGÉ, 2006, 180.
  • “A época atual será talvez, sobretudo, a época do espaço. Nós estamos na época do simultâneo, nós estamos na época da justaposição, na época do próximo e do distante, do lado a lado, do disperso. Nós estamos em um momento no qual o mundo se faz sentir, creio eu, menos como uma grande vida que se desenvolverá através dos tempos do que como uma rede que liga pontos e que entrecruza seus laços” (FOUCAULT, M. “DES ESPACES AUTRES”. In: Dits e Écrits, tome 2: 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001. pp.1571-1581.)

Depois de ter realizado “ZEMRUDE”, uma série fotográfica sobre uma das cidades invisíveis de Italo Calvino, interessou-me a construção dos espaços (imaginários) e a discussão em torno dos “não-lugares” de Marc Augé. Na construção dos espaços (imaginários) de “SPACE 3” foi fundamental a leitura de Foucault e de David Harvey. Na estruturação de “AUSÊNCIAS” foi essencial Marc Augé.
De “ZEMRUDE” já vos falei aqui e há ainda alguns exemplares da fotozine regular à venda, na loja. Novos são os trabalhos “SPACE 3” e “AUSÊNCIAS”.

SPACE 3” é um território de imaginação geográfica e fotográfica. Recorre em certa medida ao conceito de heteropias usado por David Harvey ao referir-se aos espaços heterotópicos. É um “trompe-l’oeil” que nos obriga a refletir nas possibilidades dos espaços. Um terceiro espaço com origem numa espécie de engarrafamento do tempo, que decorreu entre tomadas de vista dos espaços que, apesar de geograficamente localizáveis, nunca são os mesmos porque também os eventos que ali têm em lugar, os significados que se lhes atribuem, as ideias e ideais que lhe subjazem não são os mesmos. A primeira tomada de vista data de entre 50 a 100 anos atrás.
Interessou-me, ao debruçar-me sobre a questão do território, a construção de – parafraseando Foucault – “espaços outros”, através de uma espécie de arqueologia da imagem. O passado dos espaços sempre me interessou, nomeadamente e neste caso, para me ajudar a criar outros espaços, cuja existência se resume à superfície bidimensional do papel fotográfico. Espaços imaginários.
A série “SPACE 3” podem ser vista AQUI. Da série está já ao alcance dos interessados uma fotozine.

AUSÊNCIAS” discorre sobre o Homem na sua condição de animal social, ser de afetos, e os relacionamentos que opera com a comunidade em que se insere e com os espaços que ocupa. É uma metáfora que dá expressão à omissão da criação de laços identitários e relacionais entre os humanos e entre estes e o território em que se movimentam, indiferenciados e despersonalizados.
Imagens (aparentemente) vazias que consubstanciam também um discurso sobre as possibilidades da fotografia. Uma fotografia de aparências, que discursa sobre a verdade através da mentira ficcionada das imagens. A série tem também uma fotozine, que vais estar disponível na loja para aquisição, dentro de um ou dois dias.

No próximo dia 7 estarei em Coimbra a apresentar estes trabalhos, na Casa da Esquina e falar sobre Território e Imaginação.

Ficam convidados, esperando que estes trabalhos despertem algo em vós.

Até logo.

ZEMRUDE Edição Regular

ZEMRUDE Edição Regular

Já se encontra disponível para venda a brochura de ZEMRUDE, uma cidade imaginária. O livro de edição limitada esgotou e já não há qualquer exemplar para venda.
A brochura tem uma edição de 10 (dez) exemplares, com 17 fotografias e tem o custo de 7 euros . Além das fotografias a publicação contém um mapa da cidade!!!
Os interessados podem adquirir a brochura na loja do site. zemrude_regular
Obrigado.

Ficha Técnica:
título | zemrude
autor | arlindo pinto
dimensões | 18×13 (horizontal)
número de páginas | 24
capa e miolo | papel couche
editor | do autor
edição | 10 exemplares
pvp | 7 euros