Alegoria do Inferno

2010

Alegoria do Inferno confronta um imaginário religioso herdado com um olhar que já não o reconhece como verdade. Monstros, demónios e figuras de castigo e condenação são retirados do seu lugar doutrinário e devolvidos ao campo da imagem.

A série não procura ilustrar a crença nem simplesmente negá-la. Interessa-lhe a forma como Céu e Inferno permanecem como construções simbólicas, mesmo quando a fé deixa de lhes dar fundamento. A função moral da alegoria cede assim lugar à ambiguidade do olhar: atração e repulsa, sagrado e profano, medo e desejo podem coexistir na mesma imagem.

É nesse intervalo — entre uma iconografia recebida e a liberdade de a reinterpretar — que o trabalho se instala. As fotografias não propõem uma leitura definitiva. Deixam ao espectador a possibilidade de reconhecer, imaginar ou construir o seu próprio inferno.