Ultramar

On 2010/03/22 by Arlindo Pinto

Diário de Noticias 04/03/1963

Da janela avistámos o Rego.
Solicitámos a cegueira dos veículos.
A tarde envolvia, quente,
o ar transbordante de oralidades mal concebidas,
ao que ripostámos adormecendo o corpo na alma arrasada
pelo som áspero de um transporte explodindo lentamente,
como se a lassidão da atmosfera estivesse agora mais perto.
O estoiro abriu as janelas aos guardiães das doenças fatais,
que mastigavam a carne apodrecida.
Contaminados,
retomámos o olhar longínquo e, num ângulo certo,
vislumbrámos o interior do presidente.
Viajava segura contra incêndio!
Ateámos-lhe fogo e continuámos a rir até que
os ossos se transformaram numa cinza parda,
desmentida de novo ao olharmos, cegos,
as mães dos passageiros que riam em escárnio
à sorte dos filhos estropiados no
ultramar português.
Merda… era tão bom rir enlouquecido pela selva verde!

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