Oremos ao deus da hipócrisia.

On 2005/12/23 by Arlindo Pinto

Árvore de NatalÉ! Estamos a atravessar uma quadra festiva, uma época de paz e amor. Tanto amor que quase caímos no pecado (mortal) de amar a mulher (ou o marido, eu fico pela mulher) do próximo. Trata-se de celebrar o nascimento do Filho do Criador.
Mas, mais importante, trata-se de transportar para a era moderna os gestos de Baltazar, Melchior e Gaspar. Nem que para isso tenhamos que suportar longas filas de transito automóvel ou pedonal. Encontros e encontrões nas catedrais do consumo, tomar aquele banho de multidão, que nos traz os mais variados odores, os gestos mais simpáticos, as melhores prosas dos vendedores de lojas de toda a natureza e feitio.
Por amor conseguimos desejar um bom natal aos que gostaríamos de ver no Nepal ou em qualquer um dos pólos terrestres. Creio até que podíamos muito bem oferecer-lhes presentes. Por falar nisso, os chefes devem desconfiar quase sempre quando um subordinado lhes oferece presentes, sobretudo se for só nesta época. Se desconfia de algo, é aconselhável nestes casos não tocar em comidas ou bebidas. Por causa dos venenos…
Depois ainda há aquelas mensagens de natal na TV. Recordo-me como se fosse hoje, as únicas que talvez fossem verdadeiramente sentidas: as dos militares portugueses que guerreavam nas ex-colónias. Há ainda as visitas às instituições que praticam o bem em nome do Estado ou em nome próprio, que parece só existirem nesta época do ano. Assim como as roulotes das bifanas que só aparecem à noite, qual vampiro em busca de sangue quente, ou os toldos das praias que só no verão arreganham os dentes ao deus sol. Quando acompanhado pelos mais viciados na entrada, permanência e saída dos altares das modernas catedrais, arrasto-me de forma penosa de loja em loja, confuso, baralhado, pensando nas coisas que A ou B gostariam de receber. Se viajo sozinho e sem bagagem tudo acontece de forma bastante mais rápida, às vezes vertiginosa e, por vezes, acabo por comprar algo que posso vir a constatar não ser para ninguém…
Arriscaria afirmar estarmos perante uma época, acima de tudo, de hipócrisia, de falsidade, de despesismo exagerado, construído em nome não sei de que deus ou de que santos.
Aleluia!

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