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UHF - Jorge morreuVivia eu, juntamente com um número indeterminado de outros seres, em pleno Bairro Alto lisboeta, numa habitação a que chamavam pensão, quando um dia, de uma telefonia sem fios, de um quarto contíguo, me chegou o som abafado de “Cavalos de Corrida”, dos UHF. Assim acordado e de forma estremunhada, elevei o torso e apoie os cotovelos no colchão que ocupava na parte inferior do beliche, olhando fixamente para a porta dupla, alta, creme e suja, que dividia os meus parcos aposentos dos de onde provinha o som. Apanhei como que um KO matinal. Como se tendo estado a dormir, tivesse acordado e, sem mais, um directo de esquerda me colocasse de novo em hibernação. Que raio era aquilo?
Fui para o banho à socapa. Naquela altura, tinha já ultrapassado o limite máximo de dois banhos semanais, tal como o contrato verbal estabelecido entre os moradores e a proprietária estabelecia. Podíamos, no entanto, lavar tudo todos os dias: “as partes” e os pés e os sovacos. Mas, banhos completos, só duas vezes por semana. Tinha acabado de entrar. Debaixo do chuveiro, de chinelos a cautela, não fosse apanhar um valente “pé de atleta”, a água quente sabia bem. Era Outono ou Inverno e a capital estava fria. A casa estava fria. E a água acabou, como em tantas outras vezes, por ficar fria. A senhora de óculos, gorda e porca, apercebeu-se da minha violação contratual e desligou o esquentador, a meio daquele primeiro prazer do dia. Lá acabei a molha ao frio e com as partes recolhidas. O banho frio tem as suas virtudes. Retira a erecção matinal e qualquer intenção de a recuperar a meio da lavagem.
Descendo até ao Camões e por aí adiante até à Rua do Carmo, entro na Valentim de Carvalho e lá estavam eles, os cavalos de corrida. Fiquei contente por cá já termos aqueles cavalos. Já era tempo de alguém produzir alguma coisa de jeito. Mais coisas haveriam de surgir, e a avidez das editoras havia de tentar transformar merda em ouro a toda a força. Felizmente poucas vezes o conseguiram e o que era ouro, ouro ficou.
Sem estéreo ou outra coisa que reproduzisse vinil nunca cheguei a cavalgar aqueles cavalos. Mas as minhas investigações haviam de conduzir-me, mais tarde, ao primeiro registo dos UHF, altura em que, aliás, fiquei a saber que o Jorge tinha falecido, porque eles próprios mo comunicaram:
O “Jorge morreu”! Estávamos em 1979.

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