A minha vida num mar de fantasmas

Eres Una Puta

Ilegales - Eres Una PutaHá que tempos, hein!
É mesmo. Tempo demasiado. O tempo necessário para ir sarando algumas feridas. O restabelecimento é lento, mas consistente, espera-se. Entre cabeçadas na parede – em sentido figurado bem entendido, até porque as tipas não valem isso – e afundanços no sofá da sala, vou trilhando um novo caminho. É mentiroso quem afirma que só se nasce uma vez. Acredito, pois, no renascimento – sim, também no que marca o fim da idade média e o início da idade moderna. Quando vivemos uma mentira durante muitos anos, como foi o meu caso, acabamos por perceber, mais tarde ou mais cedo, que nos anulámos, que vegetámos, que aquilo teve tudo a ver com todos menos connosco. E depois o quê? Depois lembramo-nos da história do cavalo velho que caiu num poço seco e do qual, naturalmente, não conseguia sair pelas suas próprias patas. Nesta história o dono, decide que, como o animal era já velhote e que quer ele quer o poço pouco préstimo tinham, o melhor era enterrá-lo vivo, ignorando os seus lamentos. E com a ajuda dos vizinhos, toca de iniciar o macabro funeral. A cada pá de terra que lhe caía no lombo o cavalo sacudia-a e dava um passo sobre ela. Depois de muita terra sacudida, o cavalo conseguiu, caminhando sobre ela, emergir do poço. Cansado é certo, mas com uma nova vida pela frente. A história acaba aqui, mas romanceando a coisa, o facto é que depois de se ver fora do poço, o cavalo galopou durante dias e jamais voltou ao seu antigo dono. Mais tarde foi encontrado por um camponês que lhe deu guarida e o cuidou até ao fim dos seus dias (do cavalo, entenda-se).
Histórias à parte, vou voltando aos poucos aos meus hábitos e criando outros mais recentes condicentes com a minha nova vida. Uma vida, provavelmente, mais curta do que a anterior, mas que, estou certo, será bem melhor. Tudo é preferível a viver com alguém que, decorridos muitos anos, se revela um ser ignóbil, dissimulado, de baixa moral e, acima de tudo, falaz.
Contudo, há aqui duas questões que têm que conhecer resposta. A primeira é, como é que eu não percebi isso antes? A segunda é, qual é a medida exacta dos meus cornos (desculpem o vernáculo, mas é mais libertador)? Para a segunda sei apenas que não são muito grandes, porque continuo a atravessar as portas cá de casa sem problemas. Para primeira não conheço resposta, apesar de achar que sou muito estúpido. Mas, se alguém tiver outra ideia deixe aqui a dica.
Como pano de fundo desta pequena prosa ficam os Ilegales, com um tema a propósito.



Por