A minha vida num mar de fantasmas

Dia de raiva!

Manifesto - Ricardo Figuinha(Atenção: no texto abaixo é usada linguagem vulgarmente reconhecida como calão e obscena. Seria socialmente correcto não o fazer. Mas eu não sou hipócrita, nem bebi chá em criança. Apenas café que me excitou suficientemente o cérebro, não só para dizer estas besteiras, mas também para saber que todos o fazem, ainda que digam que não. Fingimento inaceitável e moralmente reprovável. Se a linguagem da natureza citada o (a) choca, ou se é menor, peço-lhe encarecidamente que não leia o texto abaixo. Se o fizer e não estiver em sintonia, seja ela FM ou OM, não diga que não foi avisado(a) e enxovalhe depois o autor e o citado, fazendo comentários à impropriedade da linguagem e da falta de educação dos mesmos, correndo dessa forma o risco de estar deliberadamente, e por culpa própria, a difamar pessoas de bem, que podem perfeitamente pôr-lhe um processo em cima, ou em baixo, como mais lhes aprouver.)

Andava eu de volta da limpeza e arrumação da garagem, deitando fora vestígios do meu passado, duvidoso ou não, quando por entre um trago de gin tónico bem frio (que as limpezas requerem calma e descontracção etílicas) e um tema – The Hunter – dos Free (uma das maiores bandas rock que o planeta já conheceu), quando inopinadamente deparo com um dos livros que mais marcas deixou na minha pouco sóbria juventude. Nada menos de que o “Manifesto” de Ricardo Figuinha, uma “proposta de anarquia corporal, sem erva, sem ácido, sem nada”, algo de que considerando o conteúdo tenho sérias dúvidas, mas que para o caso não tem o menor dos interesses. O Ricardo é (se não se apagou ainda) licenciado em filosofia e, nessa qualidade produziu o livro de que vos deixo alguns excertos em tempos sublinhados, pela profundidade uterina, se me permitem a expressão, de que os mesmos se revestem. Tendo em conta o prefácio do livro, de acordo com o qual deve ser lido como se de um só poema se tratasse, estarei ao citar fragmentos a cometer a heresia de desrespeitar os desejos do autor. No entanto, como se sabe, realizada a obra e entregue ao público para a que aprecie ou deprecie, nada mais o autor risca para o que quer que seja e cada um faz dela a interpretação que mais lhe agrada. Por isso Ricardo, como bom filho da puta que sou, vai-te quilhar que eu vou citar o que me apetece. Aqui vai:

“Sempreconfusosempreconfusosempresempreousoofusoconfuso
Cheiodeusofartodofusosempreconfusosempreconfusosempresempreconfusooooooooooooo

Só porque a gramática apreendida não é
a linguagem do vento
e o menino (ó mãe, velha puta anarca na narração da minha cabeça)
que saiu da catequese
estava doido.
E no caderno diário tinha escrito a sangue
uma lista de impressões sobre os sentidos.
poema de morte-vida que mais tarde
lhe permitiu uma compreensão última
das tardes”

E mais:

“POIS:

Todos os patriotismos estão dentro da minha retrete
Todos os hinos foram entoados por mutilados e
o céu ainda fica longe da minha janela
e a democracia é uma vaca parida por um porco
no curral das maiorias.
Faço apelo aos anjos não castrados, aos bichos-de-
-seda que vivem fora do casulo inidimensional para
que cantem o hino da salvação dentro das secções pú-
blicas sem selos fiscais na língua e que todos os
autoclismos funcionem bem, de modo a que o Primeiro
Ministro se aperceba que é ministrado.
Faço apelo para que o leitor diga bom-dia à porteira
e ao seu carro e ao seu fato, pois todo o instrumento é
susceptível de comunicação e
tudo o que é comunicável parece susceptível de solidão
nesta sociedade de caricas, berlindes e outros brindes.
Faço apelo aos filhos da puta que se encontram em todos
os bares, em todas as esquinas para que reconsiderem a sua
própria automatização e resolvam capar os limites da cabe-
cinha e da pilinha, enfim.
Faço apelo a tudo o mais e ao resto porque creio que toda e
qualquer transformação seria desejável

PORQUE AO MENOS PODERÍAMOS TENTAR
DESSE PARA O QUE DESSE”

Depois do terceiro gin tónico, tudo isto me parece extremamente actual, apesar de decorridos 18 anos sobre a edição do “Manifesto”.
A “A” acha que o autor é tarado sexual, tem um discurso escatológico e que eu devia usar outros textos, mesmos meus, melhores do que estes do Ricardo.
Ricardo onde quer que estejas, quero que saibas que também li o “Elogio da Loucura” do Erasmo de Roterdão, a “Teoria Geral da Estupidez Humana”, do Vítor J. Rodrigues e ainda o “Supermacho” do Alfred Jarry e, sim, a democraCIA é uma vaca, só não sei se foi parida por um porco, mas se tu o dizes, quem sou eu para duvidar.
Também te quero dizer, Ricardo, que neste momento estou um pouco confuso, porque, tal como tu, nasci num país que deu novos mundos ao mundo e tendo construído tanto barco, caravela, navio ou o raio que os parta, não foi capaz de guardar um leme para não andar à deriva. Por isso, anda!
Aquele abraço.

P.S.: excepcionalmente este livro tem música! Tudo porque também ela inspirou este texto desprezivel e socialmente reprovável.



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