A minha vida num mar de fantasmas

A noite do vampiro

Xeque-Mate - Vampiro da uvaDe tão entretido (demasiado) que tenho andado no afã de remodelar o site (que já está muito melhor, a navegabilidade etc. e tal) que nem me dou conta que o faço até altas horas da noite. Da noite. Sim, da noite. Só agora me vem à memória que a noite, se por um lado é boa conselheira, por outro é o espaço de todos os perigos. Medo.
É na noite que eles procuram o sangue fresco das vítimas, para mais uma festança de bebedeira certa. Posso ser a sua próxima vítima, de uma forma ou de outra. Ou dos cegos de asas largas, os amorcegados vampiros. Ou do vasilhame sem fundo, das garrafas de vinho ordinário das tascas cá do burgo. Mal por mal, prefiro a segunda. Mas, ainda assim, é doloroso.
Não devo realizar tarefas durante a noite. A noite fez-se para descansar. E para os vampiros, caraças… Por certo hoje é noite de banquete. Pressinto que sim. Pareceu-me ouvir ruídos no exterior, bater de asas, voos rasantes junto da pequena janela deste meu buraco. Sou uma presa acossada, sem hipótese de fuga, alimento certo destes animais de caninos longos e afiados.
Apercebo-me que estão já junto à porta e remexem a fechadura… Mas… não é suposto os vampiros trespassarem paredes como se nada fosse? Estranhos vampiros estes do século XXI. O passar dos anos deve ter-lhes retirado alguns poderes. Só pode. Caso contrário já teria um deles agarrando-me ferozmente o cachaço, enquanto me sugava a jugular sem dó nem piedade, preocupado apenas em alimentar-se para perpetuar a espécie.
Sem evasão possível, resigno-me à minha sorte e arrependo-me de alguma vez sequer ter sabido que existia a Internet ou até ter pronunciado este estrangeirismo…. Se calhar são os vampiros da língua.
Entraram e escrevo tremulo no teclado, apenas na esperança de deixar para a posterioridade as minhas últimas palavras e o testemunho de vitima certa, que depois de bem mordido vagueará juntamente com os da sua espécie, fazendo da noite hora de passeio e alimento. Não será mau de todo. Desta forma terei a noite inteira para trabalhar no site.
Estão já no interior da habitação. A porta abre-se de rompante, é o fim. À porta do buraco assoma um vulto corpulento que pergunta:
- Então, ainda aí? Não pagas um copo?
Chi! Afinal era um amigo, o “Vampiro da Uva”!
E eu convencido que era mesmo Xeque-Mate!



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