Fios de Vida

Quem conhece o trabalho de Arlindo Pinto sabe que pode ter sempre à espera algumas surpresas. Porque esse trabalho é feito de uma permanente renovação, como se o olhar do autor, permanecendo o mesmo, conseguisse mostrar que pode ver as coisas de uma forma diferente, nova, sempre nova. Uma forma renovada. Percebe-se que o autor não tem medo de arriscar. E a verdade é que ganha com isso, e ganham as imagens; e quem as vê, que não pode ficar indiferente. Mas Arlindo Pinto não é apenas um observador, é também um criador. Mais do que também, é sobretudo um criador, ou antes, um inventor. Talvez isso explique o seu olhar à procura das coisas novas. Um olhar, quem sabe, um bocadinho obediente; porque a procura daquelas coisas novas lhe é ditada pelo espírito inventivo do autor. Em tantas coisas, nos mais variados lugares, em momentos que depois se percebe que são irrepetíveis. O tempo a passar na savana, com um animal pensativo por perto. Um jogo de futebol, dos de miúdos. O corpo de uma mulher, pelo fim da tarde. Uma peça de teatro, como se recuássemos várias dezenas de anos em Lisboa. Os homens mais velhos no jardim, sentados de costas para nós que depois havemos de vê-los. Acredito que o autor possa ter no seu trabalho a experiência do narrador de um romance para mim inesquecível, o belíssimo «Soldados de Salamina», escrito pelo espanhol Javier Cercas. As coisas, qualquer coisa, qualquer uma que ele quer fixar, que quer dizer ao olhar para fixar, e ainda não sabe como. O olhar atrapalhado, à espera, ou também ele à procura. E o autor também. Até ao momento em que percebe como terá de fazer. E vê, antes da imagem, como ela vai ficar. No livro é mais ou menos assim. A certa altura pode ler-se: «Vi o meu livro inteiro e verdadeiro, o meu relato real e completo, e soube que só me faltava escrevê-lo, passá-lo a limpo, porque estava na minha cabeça do princípio ao fim...» Para a imagem, nessa altura, falta apenas um clic. António Manuel Venda, escritor.

25 Fotos

Miopia

Numa aproximação óbvia ao jogo de sombras e formas, Arlindo Pinto oferece-nos a possibilidade, a nós observadores, de poder-mos construir a nossa própria reflexão que vai além da mera representatividade figurinista da imagem. Neste sentido, é explorado pelo autor a representação imagética (numa clara alusão à Miopia) que passa pela captação de um momento espacial, eternizado numa óptica de continuidade performativa. Como observador, encontro nas imagens do Arlindo uma espécie de substituição do olhar tradicional, encontro uma materialização de figuras descodificadas e descodificadores de pensamentos num abandono da perfeição da imagem digital e um encontro de uma subjectividade da imagem como representação de um ensaio fotográfico. Luís Rocha, fotógrafo (Movimento de Expressão Fotográfica)

24 Fotos

No Line On The Horizon

"I know a girl who's like the sea I watch her changing every day for me Oh, yeah Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh One day she's still, the next she swells You can hear the universe in her sea shells Oh, yeah Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh No, no line on the horizon, no line I know a girl with a hole in her heart She said, "Infinity is a great place to start" Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh She said, "Time is irrelevant, it's not linear" Then she put her tongue in my ear Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh No, no line on the horizon, no line No, no line No, no line on the horizon, no line No, no line The songs in your head are now on my mind You put me on pause I'm trying to rewind and replay Every night I have the same dream I'm hatching some plot, scheming some scheme Oh, yeah Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh I'm traffic cop, due de marais The sirens are wailing, but it's me that wants to get away Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh No, no line on the horizon, no line No, no line No, no line on the horizon, no line No, no line" U2

11 Fotos

TvShots

TEMOS DE DEITAR FORA A CAMARA “Temos de deitar fora a camera, não passa de uma ferramenta que nos diz que o mundo existe, e o que ela nos mostra é quase sempre menos interessante do que o que realmente se passa.” Peter Greenaway A pintura clássica morreu no dia em que a fotografia nasceu, assim como o cinema se finou no dia em que o controle remoto foi introduzido nas nossas casas. A fotografia não ficou a salvo desta sorte, já que muito provavelmente morreu em data incerta durante a década de noventa do século passado, quando a utilização dos computadores se começou a vulgarizar, e se desenvolveram as suas capacidades de alterar tudo o que é passível de se transformar em linguagem binária. Em qualquer destes meios de expressão, a maioria dos praticantes continuou a fazer o que sabia como se nada tivesse mudado, e não há nada de errado nisso. No entanto, a partir do momento em que é possível utilizar vários meios de expressão artística e produzir um resultado final que não podemos classificar facilmente, houve artistas que começaram a pensar que podia ser muito estimulante trabalhar dessa forma. A partir dessa altura começámos a ter dificuldade em encaixar os artistas numa gaveta com uma etiqueta simples e segura. Foram inventadas novas etiquetas, mas como acontece sempre, não chegaram para todos. Os artistas fora da gaveta podem escolher entre querer entrar para uma, ou ficar de fora e preocuparem-se apenas com as suas criações, porque independentemente da técnica usada, o que conta é o resultado final. Mário Filipe Pires Fotógrafo e formador de fotografia http://retorta.net

17 Fotos

Watchin' Time

Vivemos realmente o tempo, ou ele foge-nos por entre os dedos? O relógio condiciona inexoravelmente o nosso quotidiano. Voluntariamente ou arrastados, vivemos o dia-a-dia com “falta de tempo”, recorrentemente verbalizando que “tempo é dinheiro”. Contudo, desaproveitamos tempo e perdemo-lo efectivamente, extraviados num mar de superficialidades, apanágio da “vida moderna”, das grandes cidades e das catedrais do consumo. Também sabemos que o “tempo foge”, que não se regenera, que jamais poderá inverter a sua implacável marcha. Mas, mesmo sabedores de tal facto, caímos no insensato logro de pensar que o mesmo não finda, nem se nos acaba jamais. Quedamo-nos, dessa forma, numa letargia em que apenas olhamos insistentemente para o relógio que marca o compasso diário da pauta que constitui a soma dos nossos dias, divisando incrédulos o tempo que passa. O relógio marca o tempo e nós, seus senhores, limitamo-nos a vê-lo passar, displicentemente. O trabalho que agora se apresenta, visa abrir portas à reflexão sobre a efemeridade do tempo e a necessidade de o viver intensamente, como se cada dia fosse o último e o relógio pudesse parar logo ali. Arlindo Pinto, Outubro, 2007

6 Fotos